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E O CORAÇÃO, COMO VAI?

Texto: Jussara Lopes (*)

Cães e gatos também são vítimas das doenças cardíacas. Mal que ataca um em cada dez animais

Dificilmente o cão ou o gato morre de infarto. O sistema cardiovascular deles é muito resistente. Afinal, não fumam, não bebem e não têm estresse. Mas há doençcas, congênitas ou adquiridas, tanto do filhote quanto do animal adulto. O ideal, para a dra. Maria Carmen Cioglia Dias Lima, veterinária de Belo Horizonte, é fazer um longo check-up no filhote para descobrir doenças do coração e tratá-las. "De 90 a 95% são doenças adquiridas", afirma ela. "Cerca de 3% podem ser problemas congênitos, detectáveis em exames comuns e específicos. Com um controle a partir dos primeiros meses de vida do animal, alguns se corrigem com cirurgia ou medicação.

Da experiência clínica, surgem casos bem ilustrativos, como o de duas irmãs da raça maltês. "A dona percebeu que a cadelinha estava cansada, arfando muito. Um dia, ao tomar banho, desmaiou. Como eu lido com doenças cardíacas, um colega me encaminhou o caso", conta Maria Carmen. "O exame acusou aumento do ventrículo direito e estenose, que é o estreitamento da válvula pulmonar. Infelizmente, o processo estava avançado. A dona ganhou outra maltês do criador, uma irmã de ninhada. Só que ela tinha o mesmo problema, mas em fase inicial e sem sintomas. Esse animalzinho tem passado bem."

As principais doenças de causas desconhecidas podem vir de herança genética. O professor Aparecido Camacho, da Unesp de Jaboticabal (SP), diz que os sintomas são bem comuns para todas. A insuficiência cardíaca congestiva, por exemplo, pode ser percebida considerando o tamanho e a idade do animal: prostração, cansaço, sonolência, dificuldade respiratória, perda de apetite, tosse crônica, mucosas azuladas, acúmulo de líquidos no tórax e abdome e edema pulmonar. Mas o diagnóstico só é possível com uma bateria de exames, como a ecocardiografia.

Pesquisas constataram a incidência de doenças cardíacas por setores nos centros urbanos. Em áreas verticalizadas, é grande o número de animais pequenos em apartamentos. As patologias mais comuns são fibroses da válvula mitral. Em bairros, com casas e animais de grande porte, é maior a incidência de cardiomiopatias (veja Principais Doenças).

A dirofilariose, em cidades litorâneas, ocorre com mais freqüência que a fibrose de mitral ou a miocardiopatia. Algumas doenças podem ser tratadas em casa, mas, durante uma crise - como um edema pulmonar -, o animal deverá ser levado a uma clínica.

Medicamentos ajudam nos tratamentos. Existem rações com níveis baixos de sódio indicadas para essas doenças. Porém as doenças crônicas podem ser controladas com remédios e recursos modernos; outras, como defeitos congênitos, só com correção cirúrgica. Na impossibilidade de cirurgias, o melhor é o tratamento clínico.

PRINCIPAIS DOENÇAS

FIBROSE ou endocardiose da válvula mitral - processo degenerativo da válvula mitral com substituição por tecido fibroso, que aparece mais em cães pequenos e idosos (acima de 10 anos). Raças mais predispostas ao problema: fox terrier, poodle, pequinês e mestiços (SRD) de menor porte.

MIOCARDIOPATIA idiopática ou cardiomiopatia dilatadas - degeneração do miocárdio com substituiçnao por tecido fibroso. O coração perde a capacidade de contração e dilatação. Acomete cães adultos, de porte grande: fila, boxer, dinamarquês e cocker spaniel. Quase sempre fatal no dobberman.

DIROFILARIOSE é uma verminose comum no litoral. O mosquito infectado inocula uma larva - microfilária - no animal, que alcança a cavidade do coração. Lá, se desenvolve. Provoca aumento do ventrículo direito, podendo causar embolia e parada cardíaca. É fatal, mas pode ser tratada com medicamentos ou cirurgia, se detectada precocemente.

DEFEITOS CONGÊNITOS aparecem nos recém-nascidos e jovens. Podem ser diagnosticados logo na primeira visita ao veterinário.

INSUFICIÊNCIA cardíaca congestiva é uma síndrome que ocorre em conseqüência de diversas doenças cardíacas.

ARRITMIAS são manifestações clínicas também decorrentes dessas doenças.

PROCESSOS INFLAMATÓRIOS, miocardites e endocardites que podem estar ligadas à Doença de Chagas e leptospirose. Não diagnosticadas, podem ser fatais; tratadas a tempo, há boas chances de que o animal sobreviva.

PROBLEMAS NA RAIA

CAVALOS de corrida são animais sujeitos à chamada morte súbita. A parada cardíaca mais comum ocorre quase que exclusivamente na raia, e está relacionada com o esforço realizado. No Jockey Clube de São Paulo, a incidência de acidentes vasculares é de um caso por ano. "Sob esforço, a freqüência dos batimentos cardíacos do cavalo aumenta de quatro a cinco vezes, podendo chegar a 180 por minuto. Quando ocerre a parada cardíaca, o animal morre instantaneamente", explica o dr. José Roberto July, veterinário do Jockey.

Assim como para os humanos, o risco para cavalos aumenta com a idade, e não há muito a fazer. A cardiologia eqüina não é tão desenvolvida quanto a de cães e gatos, cujas patologias mais comuns são conhecidas. Além disso, as avaliações cardíacas são realizadas apenas se o cavalo apresenta baixo rendimento.

Os chamados cavalos de recreio, de fim de semana, também estão sujeitos a doenças do coração. Só que o problema mais freqüente é de origem muscular. Como ele não se exercita durante a semana, acaba ficando com a musculatura "endurecida". Requisitado, no final de semana, é obrigado a fazer um esforço razoável por dois dias seguidos. A alternância entre exercícios físicos e o sedentarismo produz uma toxina agressiva ao animal, que pode causar lesões renais irreversíveis e até morte.

AJUDA TECNOLÓGICA

POR MEIO de pesquisas, algumas faculdades contribuíram para uma grande e importante evolução da cardiologia veterinária nos últimos dez anos. "Um desses trabalhos foi o controle da dirofilariose, sob um aspecto preventivo, evitando muitas vezes que o animal, mesmo picado, desenvolva a doença", explica o professor Camacho, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia Veterinária. "Já é possível operar o cão para a retirada do verme. A cirurgia é feita pela veia jugular, com a inserção de uma pinça especial", complementa.

Exames como Holter de ECG, eletrocardiograma, ecocardiografia e doppler são recursos - alguns recentes - que auxiliam muito no diagnóstico das cardiopatias, como colocação de marcapasso em casos de arritmias. No Brasil, um dos poucos centros cirúrgicos para cardiopatias em animais fica na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal, e na Faculdade de Medicina Veterinária da USP.

GATOS: IMPOTÊNCIA DAS PATAS É UM DOS SINTOMAS

A MIOCARDIOPATIA dilatada já foi uma doença cardíaca comum em gatos. Hoje é rara. Descobriu-se que era causada pela deficiência de um aminoácido chamado taurina. A solução foi aumentar a dose desse elemento na ração, evitando-se a doença.

Mas a miocardiopatia hipertrófica - uma alteração do músculo cardíaco de causa desconhecida - continua acometendo gatos de todas as idades, desde meses até 15 anos ou mais. "Sua manifestação pode estar associada à hipertensão, bastante freqüente, ou ao hipertireoidismo", explica a dra. Luciana de Oliveira Domingos Barbusci, veterinária do Serviço de Cardiologia Veterinária da USP. "A principal complicação da doença é a formação de trombos, ou coágulos, nos vasos sanguíneos. Se um deles parar na bifurcação da aorta abdominal, vai provocar a paralisia dos membros posteriores, que podem gangrenar e levar o animal à morte", alerta a veterinária.

Os sintomas muitas vezes são imperceptíveis para o dono, que deve ficar atento a alguns sinais:

- impotência das pernas (o gato começa a mancar);
- prostração;
- falta de ar (edema pulmonar);
- respiração com a boca aberta;
- falta de apetite;
- acúmulo de líquidos no pulmão (efusão pleural).

Muitas vezes, os primeiros sintomas da doença surgem depois de algum tipo de estresse, como uma briga de rua ou castração, que provoca um estresse anestésico. O tratamento funciona à base de antiarrítmicos, diuréticos e antiplaquetários, para evitar a formação de coágulos.

(*) Consultoria: Maria Carmen Dias Lima, Aparecido Antonio Camacho, Luciana de Oliveira Domingos Basbusci, José Roberto July.

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