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FEITO CÃES E GATOS
Toda criança sabe: cães e gatos não se dão bem por natureza. Mas um bom trabalho de socialização pode fazer da convivência uma boa amizade

POR ADRIANA MORI

Cães e gatos, desde épocas remotas, são vistos como inimigos mortais. Tanto que, se duas pessoas convivem como cães e gatos, o relacionamento está à beira do abismo. Porém, diferente dos humanos, a convivência entre os cães e gatos do reino animal é possível e pode ser bastante agradável, tanto para os animais quanto para seus donos.

"Para uma boa convivência, é essencial que os animais passem por um processo de socialização, para que aceitem a idéia de que terão de conviver e que não se enxerguem como inimigos", explica Sheila Niski, adestradora da Lord Cão, de São Paulo (SP). Esse processo depende muito da paciência e boa vontade dos proprietários. "Acontece, mas raramente se coloca um cão e um gato que não se conhecem juntos e eles se dão bem de cara", conta.

Para Mauro Lantzmann, veterinário especializado em comportamento animal, o bom convívio vem de berço. "A socialização deve se dar entre os dois e os quatro meses de idade, tanto do cão quanto do gato. Nesse período, ambos começam a perder o medo e a conhecer o ambiente e seus elementos, entrando em contato com pessoas e animais diferentes", diz Mauro. São esses relacionamentos, segundo o veterinário, que irão determinar com quem e de que forma os animais vão se relacionar na vida adulta.

Nesse momento, é importante colocá-los próximos para se conhecerem, conviverem, brincarem, terem contato. "Se ambos forem filhotes, estarão descobrindo as coisas ao mesmo tempo e aceitando-as com maior facilidade como parte de suas vidas", diz. Ou seja, se o cão conviveu quando filhote e se deu bem com um gato, ele pode passar anos sem conviver com gatos que, assim que for submetido à convivência com um, não vai atacá-lo, como aconteceria naturalmente com um exemplar não socializado. "Já para o animal mais velho, o processo será mais difícil, exigirá mais paciência, mas não é uma missão impossível", diz Mauro.

O psicoterapeuta Armando Mano é uma testemunha de como o convívio de cães e gatos quando filhotes pode dar origem a animais amigos na vida adulta. Proprietário do Canil Sette Sortes, em São Paulo, Armando socializa sempre seus animais assim que chegam em casa. "Basicamente, os gatos convivem com os buldogues ingleses e shih-tzus. Gatos e cães brincam juntos, dormem na mesma cama, às vezes escondidos de mim, dividem a ração e são super apegados. Um dia, ia levar os buldogues para tomar banho e os gatos viram só eles entrando no carro e dois deles não tiveram dúvidas: pularam para dentro para ficar junto com os buldogues", conta Armando.

O adestrador Anderson Rodrigues, da Consultoria Caninos Dourados, lembra que tanto cães quanto gatos costumam demarcar territórios. "Na cabeça deles, eles são os donos daquele espaço e daquela família. A chegada de um novo animal pode ser vista como um risco ao que é deles, e nem sempre é fácil ter de dividir com outros bichos", explica Anderson. Mas, segundo ele, uma socialização pode garantir aceitação, convívio pacífico e até amizade entre eles. "Há grandes chances de tudo dar certo, e isso depende muito mais do dono do que do cão e do gato", estima Anderson.

Veja algumas dicas de como tornar possível (e até boa) a convivência entre cães e gatos:

· Prefira que ambos sejam filhotes para facilitar a aceitação mútua. Antes da chegada do novo animal da casa, pegue um pano com seu cheiro e coloque perto do seu pet. "Assim, ele já vai se acostumando com o cheiro de seu novo amigo", conta Sheila.
· Procure estar sempre com o cão e o gato. Divida sempre o carinho entre os dois e sempre que o cão ou o gato aceitarem bem o novato, faça mais carinho, dê petiscos. "Esses reforços positivos, dados quando se é 'bom' com o novato, fazem uma associação entre coisas boas e o novo amigo", explica Anderson Rodrigues.
· Acaricie e dê petiscos para o animal mais antigo da casa na presença do novo. Caso haja alguma atitude hostil por parte dele, pare tudo. "Com algumas repetições, ele logo entenderá que a hostilização ao animal novo se traduz em parar de receber algo que ele gosta", explica Sheila. Com o tempo, ele vai parar de reagir mal. "Nunca agrade o animal mais antigo quando ele estiver sendo agressivo com o mais novo. Isso pode ser interpretado como um estímulo ao mau comportamento, que deve ser repetido. Assim, ele sempre se comportará mal e o convívio jamais será possível".

Amizade animal

"A dogo argentina Babi estava com 6 meses quando a persa Tainá, de 3 meses, chegou em casa. A princípio, as duas se estranhavam, Babi rosnava e Tainá se arrepiava toda quando a outra chegava perto. Mas com as dicas de um adestrador, fui socializando as duas até que, um dia, a Babi chegou perto sem rosnar e a Tainá não se arrepiou. Nessa noite, dormiram juntas. A partir daí ficaram inseparáveis: na hora de dormir, a Babi ia buscar a Tainá onde estivesse, trazia a gata na boca e a aconchegava ao lado dela na caminha. Porém, a Tainá morreu poucas semanas depois e Babi ficou inconsolável. Passou três dias sem comer e enfiava a cabeça na casinha da gata para dormir. Ela teve problemas de pele e ficou totalmente apática. Quase morreu de tristeza". Andréa Camargo, Curitiba, PR

"Quando meu persa Mozart tinha 2 anos, ganhei o Chopin, um teckel. Como todo filhote, o Chopin queria brincar, mas Mozart não o aceitava, dava socos na cara e no traseiro do outro. Com o tempo, apesar de não terem se tornado grandes amigos, passaram a conviver, mas cada um na sua. Quando Chopin tinha 18 meses, chegou em casa o Strauss, outro persa. Como eu queria que fossem amigos, fiz socialização entre eles. No começo, eles se estranhavam, mas em poucas semanas já se aceitavam. Sucessivamente, começaram a se cheirar, a ficar juntos e dois meses depois rolavam no chão como velhos amigos. Quando Strauss já era adulto, veio o pequinês Akio. No começo, o Strauss morria de ciúmes, mas de tanto ter convivido com Chopin, Strauss logo aceitou Akio e o pequinês logo já fazia parte da gangue. Hoje, a família está completa com o shih-tzu Kazuo e a persa Anabelle. Tirando o Mozart, que não aceita os cachorros, os outros cinco se dão super bem, dividem até ossos". Márcia Christina Ratto, Santos, SP

"A minha fila brasileiro, Lucrécia, tinha 6 meses quando adotamos o gato Valentino, que tinha sido abandonado na frente da minha casa com poucas horas de vida. Nessa época, ela ficava fora de casa e ele dentro. Quando ele fez 2 meses, começamos a apresentá-los devagarinho. A Lucrécia nunca latiu, mas mostrava muita curiosidade. A gente mostrava o gato pela grade e sucessivamente íamos colocando o gato cada vez mais perto. Um dia, saímos fora de casa e mostramos o gato para ela, de perto. A partir de então, começamos a deixá-lo no chão, com alguém olhando. Quando vimos que ela não atacaria, deixamos os dois sozinhos. Depois de um tempo, adotamos os gatos Fellini e Memphis, que passaram por esse mesmo processo de socialização e nunca tivemos problemas. Dois anos depois, chegaram os poodles Merlin, Lancelote e Morgana, ainda filhotes. Os gatos, como já eram acostumadas com a Lucrécia, aceitaram os novos muito bem e eles, por serem filhotes, acabaram crescendo e convivendo a vida toda com gatos". Manuela Zaccara Sabino, João Pessoa, PB

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