Entrevista
- MEU BEM, MEU MAL
O presidente da Associação Paulista do Rottweiler (APRO),
José Francisco Rodrigues defende sua raça favorita das acusações
As mais recentes
notícias são de arrepiar. No mês de março de
2000, os rottweilers foram responsáveis por duas mortes. Em Carapicuíba,
na Grande São Paulo, seis deles atacaram uma mulher e suas duas
filhas, matando uma e deixando a outra em estado grave. Em Curitiba (PR),
um rapaz foi morto por dois cães da mesma raça depois de
ter invadido uma escola à cata de papéis e latas. Para José
Francisco Rodrigues, há quatro anos presidente da Associação
Paulista do Rottweiler (APRO), hoje o rottweiler é o bode expiatório
da incapacidade humana no trato com os cães. "É muito
cachorro para pouca responsabilidade", desabafa.
FOCINHOS:
É justo associar a imagem de cão assassino ao rottweiler?
José F. Rodrigues: Não, pois não corresponde
ao temperamento do rottweiler e nem ao de nenhuma outra raça. O
problema é que se o governo não oferecer segurança
efetiva à população, as pessoas vão tentar
se proteger de outras formas, como com cães de guarda. Nesse sentido,
enquanto cumprem sua função, não mereceriam ser chamados
de assassinos. Criminoso é aquele que não tem cuidados no
manejo e manutenção de um cão de guarda.
FOCINHOS:
Onde está o erro que leva a acidentes como os que vitimaram duas
pessoas em Carapicuíba e Curitiba?
Rodrigues: Em ambos os casos, infelizmente, houve falha humana.
Não podemos condenar as pessoas envolvidas no acidente de Carapicuíba,
mas acho que todo proprietário de rottweiler deveria tomar todos
os cuidados possíveis, principalmente o contato do cão com
freqüentadores e usuários do local, especialmente as pessoas
ligadas a sua lida. Em Curitiba, também houve um erro: o rapaz
invadiu a propriedade desrespeitando a sinalização que indicava
a presença de cães de guarda, ignorando que o cão
estava ali para defender seu território.
FOCINHOS:
Mas os cães não têm nenhuma parcela de culpa?
Rodrigues: Animais são seres irracionais e seus proprietários
devem ter consciência disso. São como objetos, sobre as quais
as pessoas têm posse, com o objetivo de proteger humanos e bens.
Porém, muitas vezes o cão não recebe tratamento adequado
nem adestramento qualificado. Aliados à falta de relacionamento
com as pessoas da casa e imprudência no cuidado, são as causas
pelas quais os acidentes estão acontecendo com tanta freqüência.
FOCINHOS:
O que se pode fazer para evitar essas fatalidade?
Rodrigues: Sinalizar o local com placas bem visíveis, avisando
a presença de cães de guarda, promover sua socialização
e relacionamento de carinho e amizade com todas as pessoas da casa, inclusive
empregados e suas famílias. Outras medidas eficazes são
nunca manter os cães presos no canil, soltá-los sempre que
possível para que possam se exercitar e se relacionar com as pessoas.
FOCINHOS:
É necessário, então, educar os proprietários.
Rodrigues: Exato. As pessoas interessadas em adquirir qualquer
cão de guarda precisam tomar algumas providências antes de
levar o filhote para casa, como visitar vários criadores e obter
o máximo de informações a respeito da raça
desejada. É necessário saber, por exemplo, qual o espaço
necessário para acomodar bem o cão, alimentação,
necessidade de atividade física, o prazer e o trabalho que o cão
vai dar. Se a opção for pela criação, os cuidados
devem ser ainda maiores. Recomendo que nunca comprem vários cães
ao mesmo tempo, que iniciem a criação com dedicação
e responsabilidade, por meio de estudos de linhagens e cruzamentos selecionados.
FOCINHOS:
O rottweiler é um cão que qualquer um poderia ter ou há
algum tipo de pessoa que jamais deveria ter um animal dessa raça?
Rodrigues: Todo cão, seja de guarda, companhia ou caça,
tem sua finalidade, logo devemos saber para que e por que o queremos antes
de levá-lo para casa. O rottweiler é envolvente, inteligente,
pacífico e apegado àqueles com quem convive. Recomendo esse
cão a quem deseja ter um guarda com esse perfil, que tenha espaço
adequado, que vá ter responsabilidade e cuidados necessários.
FOCINHOS:
A morte da empregada doméstica em Cotia (SP) envolveu rottweilers
e um pit bull que estavam na rua por descuido do dono e que saíram
correndo atrás dela. O que poderia ter feito para evitar esse fim?
Rodrigues: Sem saber se e como o cão foi adestrado, fica
difícil prever como ele vai reagir ante uma situação
como essa. Se fosse eu, não tentaria fugir se não tivesse
certeza absoluta de que poderia escapar deles. Correr e gritar estimula
o instinto de caça do cão, e quando em matilha, é
normal a disputa pela caça, o que aumenta a agressividade.
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