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Máquina
de pastoreio
Quem
assistiu o filme australiano Babe, o porquinho atrapalhado, certamente
se lembra do casal que "interpreta" os pais adotivos do porco.
Ambos são border collies e suas cenas de pastoreio não estão
inclusas no Oscar de Efeitos Especiais recebido pela fita, pois são
todas reais, protagonizadas pelos próprios cães e sem dublês.
Países como Reino Unido, Estados Unidos, França, Austrália
e Nova Zelândia têm tradição na organização
de provas como a mostrada pelo filme.
Cada movimento
é lento e complexo, mas infalível, um autêntico jogo
de xadrez. Quem pensou em Kasparov, enganou-se. O gênio em questão
é um cão esguio, rústico, atlético e muito
inteligente. Com seus olhos, o border collie consegue fazer com que qualquer
rebanho obedeça às suas ordens. E, para a alegria do pastor,
esse cão adora o trabalho. Tanto que se diz que é difícil
para o cachorro receber um comando
de parar o trabalho quando tem algo se movimentando.
A capacidade
física e intelectual é sua arma para atender às necessidades
da lida. Afinal, estamos falando de um cachorro que pode percorrer até
70 quilômetros em um dia de trabalho sem dar sinais de cansaço.
Além disso, foi eleito o cão mais inteligente do mundo em
termos de capacidade de trabalho por uma pesquisa com mais de 190 adestradores
americanos e canadenses, coordenada pelo psicólogo e adestrador
Stanley Coren. Ou seja, para ele, nada parece difícil.
O
cão não se dá nem o trabalho de pastorear os animais:
ele simplesmente se deita e com os olhos, controla o rebanho inteiro.
É o que os pastores que trabalham com os border collies em todo
mundo chamam de "strong eyes", seus olhos, expressivos, dizem
tudo, intimidando o rebanho a não ir contra o seu desejo. "Uma
particularidade da raça é que ela trabalha silenciosamente.
Bons cães nunca latem em serviço e como trabalha quieto,
os rebanhos permanecem calmos, ocorrendo menos fadiga", diz André
Camozzato, que há 6 anos cria a raça pelo Border Collie
Club, de Porto Alegre (RS) e faz demonstrações de pastoreio
em feiras agropecuárias de todo o Brasil pela Walk Up do Brasil,
primeira equipe de treinamento para pastoreio com border collies do país.
Saída pela esquerda
De acordo com o comando dado pelo pastor, existe uma forma de abordagem
por parte do cão. Duas ordens distintas do pastor, que podem parecer
a mesma coisa para outros cães, ganham atenção e
execução especial por parte do border collie. Assim, o comando
que exige que o cão circunde o rebanho em sentido horário
é diferente do emitido caso a abordagem deva ser feita em sentido
anti-horário. Seja qual for, ao simples comando, o cão obedece
pronta e precisamente a ordem.
Chegando
em uma posição que julgue boa para controlar o rebanho,
o cão se deita e olha fixamente os animais, que como por hipnose,
param. Caso o pastor ordene que o rebanho seja conduzido em uma dada direção,
o cão abaixa a parte dianteira do corpo, mantendo as pernas traseiras
esticadas (como se estivesse se espreguiçando), e se movimenta
assim, furtiva e lentamente. O rebanho, como num estalo, volta a caminhar.
O cachorro se coloca na oposição exata para fazer com que
os animais vão à direção desejada.
Nascido
para pastorear
Assim como seu primo mais famoso, o collie de pêlo longo (raça
da estrela Lassie), o border collie se formou na região fronteiriça
(border) entre Escócia e Inglaterra. Ao contrário do que
acontece na cinofilia tradicional, sua seleção foi baseada
na capacidade de trabalho de pastoreio e não em traços estéticos,
por isso é possível encontrar border collies de pelagem
longa e curta, de orelhas em pé ou deitadas, em três combinações
de cores: preto e branco - a mais comum -, marrom e branco e tricolor
(preto, branco e tan).
É
desde pequeno que se treina um bom pastor. Aos seis meses de idade, o
filhote de border collie já começa a receber suas primeiras
lições de obediência - não a obediência
utilizada no treinamento de cães de guarda, por exemplo, mas sim
aquele que ensine o cão a prestar atenção nas ordens
de seu proprietário. Aos doze meses, o adolescente já está
pronto para começar o trabalho prático com rebanhos.
A seu lado,
o instinto natural do predador, que circunda suas presas no intuito de
ajuntá-las. O homem, sabendo usar essa características a
seu favor, poderá contar com um pastor sempre disposto.
FOTOS
CARLOS DELLA ROCCA
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