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 personalidades - Cláudio Cavalcanti
CLUDIO CAVALCANTI QUERO SER LEMBRADO PELO BEM QUE FIZ AOS ANIMAIS
Ator recolhe e d proteo aos bichos abandonados pelas ruas, como um moderno So Francisco

Por Mara Magaa
Fotos Selmy Yassuda

Voc est no Rio de Janeiro e topa com um cachorro acidentado? Chame o ator Cludio Cavalcanti e sua mulher, Maria Lcia, tambm atriz. Em pouco tempo, os protetores chegam para socorrer o bicho, seja na Vieira Souto, seja na favela da Rocinha. Para ter uma idia, em seu apartamento trplex de Copacabana habitam, alm deles, Alba Valria, uma cadela terrier, e treze gatos vira-lata, todos rfos e recolhidos ao acaso vamos l, so eles: Julio, Chico, Lilith, Ana Freud, Estela, Mariana, Nestor, Macabu, a gata Francisco (nome dado em homenagem ao porteiro do prdio, que vez em sempre recolhe os bichanos para o casal), Gatinho e Gatinhinha (irmos), Dante Gabriel e tima. Por l, alis, j andaram coelhos, morcegos, gavies... Foi esse amor pelo mundo animal que levou Cludio a candidatar-se a uma vaga de vereador pelo Rio nas prximas eleies. O Csar Maia, do PFL, convidou-me e prometeu montar a primeira Secretaria de Proteo aos Animais do mundo, diz, confiante. Como um moderno So Francisco, Cludio quer construir abrigos para todos os bichos desamparados e sonha com o dia em que humanos possam ser chamados assim.

Focinhos Como se deu sua aproximao com os bichos, especialmente gatos?

Cludio Eu tinha, l pelos anos 70, uma pastora belga preta, linda, chamada Ava Gardner. Ns (eu e a Maria Lcia) morvamos em Laranjeiras, no Rio. Alm disso, dvamos comida para uns gatos da rua e eles comearam a morar na garagem l de casa. E a Ava Gardner sabia dos gatos, mas eles no se misturavam. E esses gatos que, embora soubssemos deles, eram clandestinos, foram chegando, chegando... A, onde descamos para pegar os jornais, tinha um abertura e comearam a colocar sacos de supermercado mesmo, com cinco, seis gatinhos. E a gente criava at achar algum que os quisesse... Quando no acontecia isso, ficvamos com eles. Depois mudamos para este apartamento e a Ava e os gatos vieram conosco. Porque, importante dizer, ns no temos treze gatos; se, no momento, estamos com treze gatos aqui dentro, porque no existe outra soluo. Ns os pegamos na rua, no h lugar para eles. Isso sempre foi meu carma e minha misso. Eu no quero ser lembrado como aquele cara que foi ator... Quero ser lembrado por ter feito algum bem para os animais. E, quando eu falo de gato, falo de cachorro, falo de burro, tudo, tudo, todos os bichos...

Maria Lcia - ...do rato, que mamava em uma gata siamesa ...

Cludio Acho muito mais fcil criticar: Ah, isso coisa de bicho. Olha, bicho capaz de fazer um louco voltar a falar. Esse louco, esse doente volta a falar por causa do amor que ele tem pelo bicho e o bicho por ele. Cada vez que eu beijo um focinho de um gato, sei que ele est me dando muito mais que eu a ele. Eu sou muito fsico com os bichos, gosto muito de toque... Bom, ento quando a Ava morreu, ns comeamos a soltar os gatos pela casa. E a surgiu a Alba Valria. Alba Valria, uma terrier que foi criada com gatos maiores, veio pequenininha pra c, ento ela acha que um gato (risadas).

Focinhos Mas e o instinto de cachorro dela?

Cludio No tem. Olha, ela faz pipi no Pipicat, ela s come rao de gato, enfim, ela acha que um gato. No, ela no acha, ela tem certeza... E teve tambm o Walter, o coelho. Ns trouxemos o Walter pra casa ele morreu faz pouco tempo , e ele no entendia nada. Foi uma crise de identidade s... Imagina, treze gatos, uma cachorra que pensa que um gato, e um coelho ali perdido... Ele no sabia o que ele era...

Focinhos E ele se dava bem com os gatos...

Cludio Muito bem... Corria com os gatos, brincava, batia, queria cruzar com os gatos...

Focinhos Como assim?

Cludio Ah, ele queria transar com os gatos.

Focinhos E Alba Valria, como se comportava em relao a isso?

Cludio Ela tambm quer cruzar, mas como se fosse um gato, macho mesmo. Eles tm uma pacincia com ela...

Focinhos Ento s os gatos sabem qual a deles...

Cludio Exatamente. Acho que eles pensam assim: Hi, l vem outro bicho achando que um gato... (risadas).

Focinhos E quando foi que percebeu que voc e os bichos estavam irremediavelmente ligados?

Cludio Muito cedo eu percebi isso. J pegava gatos contra a vontade de meu pai e da minha me. Depois apareceu a Ava... e acabei conhecendo a Maria Lcia, minha mulher, na APA (Associao Protetora dos Animais).

Focinhos Maria Lcia, voc fazia esse trabalho paralelamente?

Maria Lcia Eu pegava tudo quanto era bicho na rua, subia nos morros e no meio da favela...

Cludio E tinha um ponto em comum que era a minha tia, Lia Cavalcanti, diretora da APA, que me falava da Maria Lcia desde que ela tinha treze anos de idade. E falava de mim para ela. Eu a conheci por meio da APA, por meio da Lia. E, mesmo antes de eu conhecer a Maria Lcia, senti que era a misso. Mas, depois que a conheci, a coisa foi ficando mais forte. Mas houve um fato que me marcou muito: uma vez, no Jardim Botnico, na porta da Globo, eu vi um gatinho jogado, sujo de sangue, e fui peg-lo. Seus olhos tinham sido arrancados. Fui ao veterinrio que sempre me atendia e a eu cheguei, com o gatinho pequenininho, cheio de dor... Nesse dia eu entendi a eutansia. Pedi para ele dar uma injeo. Depois, entrei no meu carro e chorei meia hora. Foi nesse dia que, de fato, eu compreendi que minha misso ia alm do ajudar. E que a gente fica muito impotente diante das maldades e do abandono. Bom, por conta desse sentimento, eu e a Maria Lcia j criamos gavio, morcego...

Focinhos Morcego?

Cludio Foi o seguinte: ns estvamos gravando Roque Santeiro numa fazenda e, um dia, vi uma coisinha pequenininha andando no cho molhado, um filhotinho de morcego. Pedi ento uma caixa para a senhora que nos ajudava l. ... E ela perguntou: O senhor quer uma caixa de que tamanho, seu Cludio?. Uma caixa pequena , respondi. Ela me deu uma de isopor, fiz uns furinhos, enchi de jornal, para que ele pudesse respirar e pus o morceguinho l dentro. A, ela me disse: Nossa, seu Cludio, o que a sua mulher vai dizer quando vir esse morcego?, ao que eu respondi: Provavelmente vai dizer: Que gracinha. E foi exatamente o que ela disse quando cheguei aqui no Rio com ele. E j no outro dia o Nosferatu subia pelo brao da gente e a Maria Lcia dava leite embebido no algodo e ele mamava com gosto.

Maria Lcia Era uma graa: A gente chamava: Nosfe, Nosfe, e ele botava a cabecinha para fora da caixa.

Cludio Ento, quero deixar muito claro isto: ns recolhemos na medida de nosso possvel. Tem pessoas amigas que fazem a mesma coisa.

Focinhos E vocs intermediam...

Cludio Muito, muito... Tem uma rede. Agora, na estria em Botucatu (SP) de uma pea que ns dirigimos, aconteceu algo extraordinrio. Foi no ensaio geral a gente s tinha o teatro aquela noite para montar o cenrio, fazer a luz, porque amos estrear no dia seguinte , estvamos esperando o cara que estava desmontando o cenrio dele para montar o nosso e samos para tomar um caf. A apareceu, no meio da noite, um mendigo, carregando uma cachorra e perguntando pra ns: Algum pode ajudar essa cachorra?. Claro que, na mesma hora, a gente pegou a cachorra e levou para a casa de uma das atrizes que moravam l... A cachorra estava paraltica... E ligamos para o pessoal do Rio para saber se conheciam algum da regio... Jundia, Botucatu... E acabamos deixando a cachorra saindo de Botucatu. Mas isso que acontece com a gente. por isso que, quando estou trabalhando, viajando, o pessoal s vezes desce pra tomar um caf e eu no vou. Porque sei que vai acontecer alguma coisa, vou ver um bicho precisando de ajuda...

Focinhos por isso que voc vai se candidatar vereana no Rio?

Cludio Acham que estou maluco com essa histria de me candidatar a vereador, mas, olha, eu jamais faria por poltica. Jamais faria por qualquer outro motivo que no fosse os bichos. E ns temos essa sorte de conhecermos a APA, mas ns temos amigos na Suipa (Sociedade Unio Internacional Protetora dos Animais), na SOS Animal, todos, todos... E a gente faz qualquer coisa, qualquer coisa de graa em prol dos animais. Ento surgiu essa idia de ter uma voz, uma voz que falasse por eles (os bichos). E acharam que eu era conhecido, poderia abrir portas. Foi um consenso.

Maria Lcia importante dizer que foi um basto passado pela Nilse Silveira (psicoterapeuta que realizou um competente trabalho nos manicmios carioca, falecida recentemente), e a prpria Lia.

Cludio A Nilse sempre foi uma herona porque ela tem um diferencial na histria do animal: no s aquela coisa de ns temos um poodle-toy que uma graa. Animal uma fonte de afeto imensa, e ela percebeu e utilizou isso com os loucos. algo extraordinrio... Os mendigos, por exemplo: quando chega a carrocinha e tira o seu cachorro, est tirando a nica coisa que ele tem. E com aquela brutalidade...

Focinhos E nessa sua batalha pela vereana, quais so os objetivos concretos?

Cludio Em princpio, ns queremos unir todas as sociedades, rgos, porque preciso saber o que elas querem que eu faa. Estamos em nvel municipal, mas o plano comear aqui e expandir depois. Mas o principal que a minha meta acabar com a carrocinha. Ns vamos recolher, ns vamos ter abrigos para todos os animais, eles vo ser muito bem tratados, vamos oferecer esterilizao grtis, unidades mveis para esse servio. Temos de explicar para o povo que uma operao, que o bicho vai ser anestesiado, no vai sentir nada e no vai procriar mais. E ento, dentro de alguns anos, agente acaba com o problema de tanto animal abandonado nas ruas. Temos de conscientizar as pessoas que esterilizao uma coisa boa.

Maria Lcia E, esterilizando os animais, estaremos acabando com uma das piores vergonhas que esta instituio, a carrocinha...

Cludio brutal, desumano o que fazem... E no s com bicho abandonado, no, eles vo atrs do cachorro l do menino da favela.

Focinhos Arrancam o bicho fora ?

Cludio fora...

Maria Lcia fora, porque eles ganham por cabea. Ento, vo atrs de mendigos, criana da favela, como o Cludio falou. E ns sabemos, porque muitas vezes j fomos resgatar esses animais l na carrocinha.

Focinho A custo de quanto?

Cludio Paga-se um salrio mnimo para libertar o bicho. Ns pagamos do nosso bolso, soltamos o animal, mas s vezes eles vo atrs de novo e o capturam. E ento somos informados e regressamos carrocinha... Isso uma vergonha!

Focinhos A campanha est nas ruas... A receptividade est sendo boa?

Cludio tima, tima... As pessoas vm nos cumprimentar, contar casos, pedir auxlio para esse ou aquele caso. Estamos tentando estreitar os elos entre os humanos e os animais, embora eu acredito que o ser humano no tenha dado certo, no.

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