Focinhos Online - A cara dos bichos na Internet
   
 entrevista
Entrada permitida
A deficiente visual Thays Martinez mobilizou a Justia e a imprensa para fazer valer o seu direito de caminhar tranqilamente com seu co-guia

Quem um co pode mudar a vida de uma pessoa, todo mundo sabe. Mas poucos tiveram tantas reviravoltas quanto a advogada paulista Thays Martinez, 27 anos, por conta da companhia canina. Cega desde os 4 anos de idade, ela adquiriu o labrador Bris e, com ele, a facilidade de locomoo dada por um co-guia. Mas a amizade entre os dois foi colocada prova pela burocracia: Thays foi impedida de usar o metr de So Paulo, mesmo estando com a lei a seu lado. Determinada, foi brigar por seus direitos. A batalha de Thays contra a Companhia de Trens Metropolitanos de So Paulo, iniciada no ano passado, foi acompanhada pelos principais jornais e parou at mesmo na delegacia. Hoje, a advogada sente-se mais segura ao deixar sua casa, no bairro da Lapa, para trabalhar no Servio de Atendimento ao Pblico da Promotoria de Proteo ao Deficiente, no centro, com a companhia de Bris. E prova que a persistncia valeu a pena.

FOCINHOS - Qual a principal dificuldade que um deficiente visual enfrenta em uma cidade como So Paulo, sem um co-guia?
Thays Martinez - A locomoo com segurana. A bengala impe restries, pois no detecta obstculos areos, como, por exemplo, um orelho. Quando voc percebe que a base est ali, j bateu na cpula. Mesmo quando a bengala detecta um buraco, por exemplo, voc no sabe a dimenso dele, se d para passar, para onde desviar. Alm disso, com medo de trmbadas, eu andava mais devagar e, mesmo assim, insegura. J o co-guia, assim que v o obstculo, indica o melhor caminho para desviar.

F - Que outros pontos voc aponta como favorveis no uso do co?
TM -
So muitos. Um dos principais a integrao social. A bengala estigmatizada. Devido a nossa cultura, no h contato com o deficiente, pois ele fica muito tempo em casa, seja por barreiras arquitetnicas, seja culturais. Quem quer se aproximar no sabe como, e acabamos sendo vistos como seres de outro mundo. J o cachorro facilita a aproximao, pois faz parte da vida de todos e tambm um pretexto para chegar perto. A minha grande vantagem no ter que usar a bengala, que eu odeio. Hoje, caminhar um prazer, mas antes era um obstculo. Deixei de fazer muita coisa em razo do desgaste que era andar com a bengala.

F - E como o co-guia chegou sua vida?
TM -
Sempre fui apaixonada por cachorro, desde criana, mas parecia coisa de fico cientfica ter um. Aos 16 anos, comecei a fazer treinamento de locomoo e mobilidade com bengala e, em 97, finalmente ganhei um labrador. Tinha a inteno de trein-lo para ser meu guia, mas o canil da Polcia Militar no o achou adequado ao treinamento. Foi terrvel: eu tinha me apegado, mas no podia ficar com ele. Algum tempo depois, conheci o trabalho de uma entidade americana e entrei em contato com uma escola brasileira conveniada com ela. Passei um ms nos Estados Unidos treinando e mais duas semanas aqui no Brasil, com o acompanhamento do Moiss, para ajudar no perodo de adaptao.

F - Quanto tempo leva essa adaptao?
TM -
A integrao total se d em um ano. Tem dia que ele faz o trabalho perfeitamente. Em outros, ele pra e tenho de me virar. Nessa fase de adaptao, ele ainda no me obedece 100%, mas a evoluo visvel.

F - Como essa evoluo?
TM -
O co aprende o bsico na escola e com o tempo outras coisas so assimiladas. No meu caso, quando o Bris se depara com um degrau menor, ele nem pra, mas prefiro assim do que parar toda hora, seno faramos pit stop de metro em metro... Percebo tambm que ele j conhece alguns dos meus caminhos. Para ir casa de uma tia, passo pela academia, onde ele d uma viradinha, como se perguntasse: "e aqui?".

F - Voc chegou a ser malvista em locais pblicos por andar com o cachorro?
TM -
Nunca, o nico caso foi no metr. Fui ao mercado e nada aconteceu. Passava e ouvia comentrios do tipo: "No pode entrar com cachorro aqui", e outra pessoa respondia: "Este pode, co-guia". essa conscincia que deve ser despertada. Quando tive a idia de ter um co-guia, fui desestimulada, pois no havia o costume aqui, diziam que no me deixariam entrar nos lugares. Mas insisti, pois se tem uma lei que me autoriza, no deveria haver problemas. Assim percebi que, enquanto no houvesse iniciativa, no haveria contato com o deficiente. No algo que a sociedade sonhe uma noite e na manh seguinte acorde sabendo que existe co-guia, que um ser bem treinado e portanto seu acesso ser permitido em todos os lugares.

F - Quando voc teve problemas com o metr?
TM -
Assim que voltei ao Brasil, fui com o treinador fazer a adaptao do Bris ao trajeto de meu trabalho. Quando chegue catraca, um segurana falou que no podia entrar cachorro, nem mesmo um co-guia. Aleguei que havia uma lei que me protegia, ento chamaram supervisor, diretor, departamento jurdico e, depois de muita discusso, fui Promotoria onde trabalho e os promotores tentaram resolver o assunto, tudo em vo. Senti que o caso ia se prolongar, procurei um advogado e entrei na Justia com pedido de liminar. Providenciamos todos os documentos exigidos. A advogada (do metr) nos instruiu a passar um fax da liminar para o departamento jurdico para que ele fosse retransmitido a todas as estaes. Logo em seguida, fui pegar um trem e me barraram. Como havia PMs l, mostrei uma cpia da lei e meus documentos. Os policiais disseram que eu podia entrar, mas o metr no permitiu. A PM levou todos para a delegacia e registrei um boletim de ocorrncia.

F - E com o documento acabaram seus problemas?
TM -
Que nada! Eu protocolei a tutela no jurdico do metr s 4 horas da tarde de um dia e, horas depois, s 7, no me deixaram entrar de novo. Fiz outro boletim de ocorrncia. No dia seguinte, um oficial de Justia intimou a Companhia do metropolitano, dizendo que, se minha entrada fosse proibida, acionaria o Ministrio Pblico para instaurar processo por crime de desobedincia. No final do outro dia, entramos, eu e o Bris, meu advogado, o oficial de justia, a PM e a imprensa. Trs dias depois, fizemos outro trajeto e, quando entramos na estao Consolao, um segurana disse que o co no podia usar a escada rolante, pois podia prender a pata. Expliquei que a liminar me d acesso irrestrito e ele insistia que havia uma nova norma sobre a escada rolante. Aleguei que a questo estava em juzo, tinha posse da liminar, a escada rolante fazia parte do trajeto, por isso eu iria us-la. E fui. Eles desligaram a escada rolante. Sob o pretexto de que o Bris iria prender a pata, eles poderiam ter me derrubado.

F - Como foi a repercusso de se caso?
TM -
Foi espantosa. Imaginei que, no incio, pela falta de hbito, as pessoas me evitariam, dentro do metr. Mas nunca me deparei com algum que no quisesse entrar por causa do Bris. Pelo contrrio, nunca houve escndalo e as pessoas queriam at acarici-lo. Depois da divulgao na mdia, vieram dar apoio, dizendo que era um absurdo o metr fazer aquilo com um cachorro to til.

F - Voc j esperava ter problemas por causa do co?
TM -
Sabia que existia a lei que me assiste e, mesmo que tivesse de recorrer ao Judicirio, um direito meu. Achava que teria problemas em pequenos estabelecimentos, onde no h estrutura nem informao. O que me surpreendeu foi essa reao do departamento jurdico de uma empresa to estruturada quanto o metr.

F - O caso chegou a desestimul-la?
TM -
De forma alguma. S voltaria para a bengala se acabassem todos os ces-guia do mundo. Enfrento essa situao porque vale muito a pena. Antes, para sair de casa, pensava dez vezes, era um obstculo antes de fazer qualquer coisa. Hoje no. s vezes nem estou muito afim, mas penso: "Vou aproveitar e dar uma voltinha com o Bris". um motivo a mais para sair de casa.

F - Como o Bris? H chance dele fazer necessidades ou atacar algum no metr?
TM - De forma alguma. Ele tem horrios predeterminados para tudo, pois faz parte do treinamento e da rotina do co-guia. Logo que acordo, ele come e eu o levo para fazer coc e xixi. Ele j sabe o horrio de comer e, se me atraso, ele me acorda para reclamar. No trabalho, tem uma varanda onde ele pode fazer as necessidades e beber gua. Os horrios devem ser respeitados para que ele tenha a certeza de que no vai precisar fazer suas necessidades no meio da rua. Quanto a atacar, mais difcil ainda. Primeiro porque ele dcil como todo labrador deve ser. Alm disso, foi muito bem treinado, um co calmo, que sabe que tem uma tarefa a cumprir e no se abala nem com o caos que o centro de So Paulo.




 Arquivo:
  Adriano Echeverria e Maria Elisa Cappellano
  André Francisco Rosa
  Rita Lee - madrinha dos inocentes

  Animais eternos? 
 
Trauma passageiro
  Lição de convivência
  Moda cruel
  Entrada permitida
 
Um passo rumo ao aperfeiçoamento genético
  "Roberto Tripoli explica a lei do RG animal"
  Sou contra os homens, no os ces
  Morte desnecessria

  Uma viagem ao inferno
  Castração,questão de respeito