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 entrevista
Moda cruel
O professor Steve Atkinson, presidente da rea tica da Associao Australiana de Veterinrios, combate a cirurgia esttica em animais - tcnica que vai do corte de cauda ao levantamento das plpebras

POR DENISE BOBADILHA

Ser que a onda de cirurgias plsticas humanas pode atingir tambm os animais de estimao? A pergunta pode parecer absurda, mas para o professor e mdico veterinrio australiano Steve Atkinson esse um assunto que precisa ser discutido desde j. A cirurgia plstica em animais j existe - os procedimentos mais conhecidos so o corte de cauda e orelha -, e, aos poucos, ganha mais conotaes estticas, como a correo de olhos cados em determinadas raas. "Se h uma razo mdica para a cirurgia, como o fato de a plpebra estar afetando a viso, a cirurgia pode at ser discutida. Agora, fazer por vaidade do dono uma crueldade", afirmou o especialista.

Alm do corte de cauda (caudectomia) e orelha (conchectomia), outras tcnicas cirrgicas criticadas pelo mdico so a retirada das cordas vocais de ces e gatos (cordotomia), para evitar latidos e miados excessivos, a retirada das unhas dos gatos (ergotectomia) e o corte de cauda do gado, que, supostamente, diminuiria a proliferao de moscas. "So intervenes decididas pelo homem, que no trazem benefcio ao animal", disse. As razes histricas estariam, de acordo com o australiano, superadas. "Pouqussimos ces que originalmente tinham funo de caa cuja cauda, longa, atrapalharia a busca da presa, so usados para casa at hoje". Outro argumento que, para ele, no9 tem valor o de que as cirurgias no provocam dor por serem realizadas em filhotes. "O sistema nervoso deles est desenvolvido e, portanto, a interveno sentida. Alm disso, se malfeito, o corte pode provocar dores por toda a vida ao danificar terminaes nervosas".

O combate cirurgia esttica nos animais no faz parte da agenda de Atkinson na Austrlia. L, assim como na Inglaterra, Finlndia, Sua, Sucia e Noruega, a maioria desses procedimentos proibida por lei. "Mas, infelizmente, existem pessoas que levam seus ces para terem as cauda cortada em pases vizinhos", conta. Das 172 raas reconhecidas pela ANKC (Australian National Kennel Club), 59 originalmente sofriam caudectomia. Os criadores ainda fazem presso no governo para colocar a cirurgia novamente na legalidade, mas a batalha deles parece j perdida.

FOCINHOS - O senhor sempre convidado para falar de tica em cirurgias estticas em animais, sobretudo dos cortes de cauda e orelha. Qual o seu posicionamento nesse assunto?
Steve Atkinson - O corte de cauda, de orelha, a retirada de unha de gatos ou de cordas vocais so proibidos na Austrlia h muito tempo e creio que, hoje, temos essa situao resolvida. Pessoalmente, acho que no h uma boa razo para essas cirurgias. Elas no vo ajudar o co de forma alguma, uma deciso totalmente feita pelo homem. Ainda assim, se h um motivo mdico comprovado - por exemplo, um cachorro que est sofrendo de uma grave infeco na cauda -, o veterinrio pode executar o servio. No meu pas, ele deve pedir a autorizao do governo para isso.

F - Os defensores da caudectomia argumentam em favor no apenas do padro oficial de determinada raa, mas tambm dos problemas que uma cauda longa pode trazer a alguns ces.
SA - H quem defenda o corte de orelha dizendo que ele mais saudvel, mas j foi provado por pesquisas que animais de orelha cortada ou longa tm a mesma incidncia de infeces na regio. Um mdico argumentou que o co recebe melhor avaliao do juiz numa exposio se estiver dentro do padro, ou seja, de orelha e cauda cortadas. preciso, ento, educar o juiz. O co tem de ser belo e campeo por suas caractersticas originais, no pode ser avaliado por um aspecto criado pelo homem. O rabo, sobretudo nos ces, muito importante, pois sinaliza comportamentos - quando abana, quando fica empinado em alerta etc. Pedir para cort-lo por razes estticas ou para obedecer o padro oficial de uma determinada raa crueldade.

F - Alm das cirurgias j citadas, o senhor acredita que as operaes estticas nos animais podem evoluir acompanhando a vaidade humana?
SA - Quase nada impossvel hoje em dia. A questo se o mdico tem uma formao tica que lhe permita fazer uma operao no animal por vaidade do dono. Existem pessoas que pedem que seus ces tenham as plpebras operadas por consider-las cadas demais. o mesmo caso do corte de cauda: se h uma razo mdica, se a plpebra est atrapalhando a viso do animal, a operao pode ser feita. Mas eu s fao se o dono autorizar que eu castre o co. Afinal, mesmo que a operao tenha sido realizada por motivos reais, ele no pode depois oferecer seu co para cruzamentos sem mostrar que ele tinha um problema fsico.

F - J que as cirurgias foram banidas, qual a principal batalha tica na Austrlia no que diz respeito medicina veterinria?
SA - Ns estamos combatendo o uso e a recomendao de remdios por pessoas que no so profissionais. uma prtica antiga e comum em muitos pases, e seu maior problema que geralmente as pessoas que receitam remdios sem conhecimento o fazem de forma errada, e colocam a vida do bicho em risco. O uso de anestesias tambm precisa ser padronizado, para provocar o menor sofrimento possvel. Tambm nos preocupamos com a situao dos milhares de animais abandonados pelas ruas do pas. Eles so adotados, encaminhados para abrigos ou sacrificados. Ainda no encontramos uma soluo satisfatria para o assunto.

F - O senhor acha que a obrigatoriedade da instalao de microchips - que podem guardar dados do animal, seus proprietrios, endereo etc. - nos bichos de estimao pode ajudar a controlar o problema?
SA - Uma nova lei determina que todos os animais nascidos na Austrlia devem ser microchipados. Os adultos precisam ser levados aos rgos competentes para fazer o mesmo. Quando o dono muda de endereo, tem de comunicar tudo. Assim, se encontramos um animal na rua e ele tem o microchip, encontramos o responsvel pelo abandono.

F - E a pessoa que abandona pode ser processada?
AS - Sim. E paga uma multa de aproximadamente 400 dlares, que um valor considervel. Isso est fazendo com que as pessoas pensem muito antes de largar um animal que, afinal, um dia foi adquirido com carinho e, de repente, ficou sem lar. Claro que chegar a microchipar 100% dos animais uma meta quase impossvel de se atingir, mas, com o tempo, poderemos chegar a um nmero muito prximo disso e darmos mais segurana aos nossos animais. Afinal, ns, serem humanos, somos responsveis por eles e temos que cuidar muito melhor do que estamos fazendo hoje. E no falo apenas do meu pas, e sim da situao do animal em todo o mundo.




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