Focinhos Online - A cara dos bichos na Internet
   
 entrevista
Madrinha dos inocentes
Militância nunca foi modismo para a cantora Rita Lee. Nos anos 80, denunciava aos pequenos os maus-tratos em animais de laboratório. Há alguns anos, luta contra a crueldade nos rodeios.

POR CLAÚDIO FRAGATA

Rita Lee faz do bom humor sua maior bandeira. Só um assunto costuma tirá-la do sério: a crueldade e os maus tratos infligidos aos animais. Nessa hora, pe de lado a irreverncia de prima-dona do rock brasileiro para combater os roqueiros, vaquejadas e todos aqueles que considera " torturadores de bichos". H anos, ela vem organizando um dossi, recheado de vdeos, fotos e laudos veterinrios para comprovar que os animais no saltam na arena porque so bobinhos ou selvagens, mas porque sentem dor. Ali esto documentados diversos recursos cruis e ilcitos usados para que os cavalos e touros pinoteiem, enquanto os pees tentam monta-los. Choques eltricos, objetos pontiagudos colocados sob a sela e substncias abrasivas so apenas algumas dessas prticas, que os promotores de rodeios insistem em negar. Rita no se d por vencida. A musicista diz que se sente " uma cigarra nomeio de tantos formigueiros gananciosos, que movimentam uma indstria milionria custa do sofrimento dos bichos". Mas no desiste.

Pretende continuar levando adiante, pois os animais so uma paixo antiga. Eles sempre fizeram, e ainda fazem, parte da sua vida. Anos atrs, cuidou de uma jaguatirica que estava abandonada num depsito, at que ela pudesse ser novamente reintegrada floresta. No incio da carreira, quando ainda fazia parte do grupo Os Mutantes, comps " Vida de cachorro", uma autntica declarao de amor aos ces. Depois, escreveu uma srie de livros infantis com temtica ecolgica, estrelados pelo doutor Alex, um cientista " do bem", que se transformou em um ratinho de laboratrio para continuar lutando pelo bem dos animais. Hoje, Rita vive cercada de bichos, gatos, tartarugas, peixes, esquilos, com os quais divide seu carinho e bom humor. Enquanto isso, torce para que a humanidade cuide melhor do planeta Terra nesse novo milnio. "Resta rezar para que nosso Homo Sapiens no involua e se transforme em Homo sapo...ironiza. " No quero nem imaginar aquele meu amigo marciano dizendo: xi, l vm os batraquius terraquius destruidores de planeta!"

F - De onde vem seu amor pelos animais? Voc convive com eles desde criana?
Rita Lee - Desde pequena fico indignada quando vejo humanos destratando bichos. No d para ficar de braos cruzados assistindo tamanha covardia.

F - Como no caso dos rodeios.
Rita - Exatamente. Uma coisa importante esclarecer que no so os animais caros que torturados antes de entrarem na arena. So os "pangars" da vida.


F - A maior parte do pblico no sabe o que acontece nos bastidores dos rodeios....
Rita - A montaria cruel a que menos interessa ao pblico. J soube de casos em que a platia cansada invadiu a arena para pressionar os cantores do rodeio a se apresentarem logo! Se em vez de pees torturadores de animais esse espao fosse oferecido a mgicos alternativos, competies de atletismo, lutas marciais, montarias em cavalos e bois mecnicos ( como j feito nos Estados Unidos), concursos diversos, espetculos de dana e etc etc, as festas continuariam acontecendo de uma mesma maneira, gerando ainda mais empregos ainda e sendo um incentivo muito maior para nossa cultura e esporte.


F - Existe a menor possibilidade de que a indstria do rodeio chegue ao fim, mesmo com todo dinheiro que ela gera?
Rita - Pois , me sinto uma pobre cigarra nomeio de tantos formigueiros gananciosos, que movimentam uma indstria milionria custa do sofrimento de bichos. Alternativas no faltam. Inclusive, os Estados Unidos, diante das presses de entidade de proteo mundiais, esto substituindo e investindo cada vez mais nas montarias de bois e cavalos mecnicos com "n" nveis de dificuldade, apresentando um espetculo muito mais emocionante da destreza dos cowboys.


F - O que dizer para as pessoas que gostam de rodeios?
Rita - O Ministrio do Bom Senso adverte: rodeios sim, humilhao pblica com animais, no! Montarias medievais, no, bois e cavalos mecnicos sim! A verdade que o grande pblico que comparece aos rodeios no tem acesso s informaes sobre as torturas com os bichos, que so praticadas antes de os portes de abrirem. Isso controlado pela malandragem poderosa de um coronelismo corrupto, que compra at a alma do diabo para conseguir alvars e passar por cima da lei de crimes ambientais. O pblico vai l para paquerar, se fantasiar de caubi, tomar umas cervejas, comer pra caramba, mas PRINCIPALMENTE, por causa dos artistas que l se apresentam. Os melhores e mais respeitados circos do mundo j no utilizam qualquer bicho em seus espetculos. Os rodeios tambm poderiam ser uma grande oportunidade, por exemplo, para os nossos verdadeiros atletas, que alis nunca estiveram to desprovidos de incentivos e patrocnios como hoje.


F - Anos atrs, voc colocou um anncio numa revista procurando um namorado para sua jaguatirica. Voc ainda tem animais silvestres em casa? A propsito arrumou namorado pra ela?
Rita - Na poca,eu adotei Martha, uma jaguatirica que estava sendo maltratada num deposto desses. Martha e Ziggy viveram momentos de amor e, depois do treinamento intensivo para poderem se defender sozinhos, foram soltos numa reserva bacana de um mdico veterinrio amigo meu, o doutor Faial.

F - Voc escreveu uma srie de livros infantis, cujo personagem principal era o Dr. Alex, um ratinho e laboratrio.
Rita- Dr. Alex era um cientista pacifista que pretendia declarar a Independncia e Vida dos Animais do Planeta Terra. Esta atitude, claro, irritava profundamente os " malignos de planto". Ento o responsvel doutor foi transformado num ratinho branco pelos prprios bichinhos e laboratrio, que ele tanto defendia, e assim poder continuar na luta sem ser notado.


F - O que voc acha do uso de animais em laboratrio? Muitos cientistas acham que os bichos so modelos biolgicos incompatveis com os humanos e assim provocam grandes catstrofes farmacolgicas.
Rita - Eu desconfio da eficincia de qualquer remdio conseguido atravs de sacrifcio de animais. Experincias onde qualquer forma de vida desrespeitada so suspeitas demais.


F - Voc sempre viveu cercada de bichos. Fale um pouco sobre os seus pets atuais.
Rita - Ufa.. vou precisar de flego. Perdi meu grande companheiro, o Pingo, uma delcia de malts, que adorava ler livros e trocar idias filosficas comigo. Ainda choro pra caramba pelos cantos da casa. Pingo minha "Maria Rita". Continua vivo, mesmo morto. Eu entendo Roberto Carlos...


F - Mas tem outros ces.....
Rita- Tenho outro dono canino, o Mike, um schinauzer cantor, que uma verdadeira me para as minhas gatas. Elas mamam no pescoo dele at hoje e , claro, Mike fica no cu.


F - Voc tem gatos tambm?
Rita - Jesus e Nikita,os felinos playboys, vivem mais no telhados da vizinhana do que comigo, no todo dia que os vejo. No momento, considero que tenho duas gatas permanentes. Uma delas a Shopia, uma vira lata crioula, que a mais nova encarnao da deusa egpcia Bastet. elegante e no come qualquer comida. Shopia aprecia muito iguarias estrangeiras, que uma amigo meu consegue para ela. Shes very chic. E a Madelana uma gatinha de raa meio suspeita, de v ter um p meio siams, e chegou em casa meio fragilizada. Mas, depois de ser adotada pelo Mike, ela relaxou e passou a se relacionar muito bem com os outros bichos da casa. Come o que tiver pela frente, mas prefere rao de cachorro. Coisas de Mike, claro.


F - Mais algum integrante da famlia animal?
Rita - Um casal de tartarugas mora num aqurio grane, na sala. Eles se chamam Nefertiti e Akenaton, hibernam durante o inverno e ficam assanhados no vero. Esto comigo h uns dez anos. As gatas andaram roubando a comida delas, ento de um tempo pra c, as tartas passaram a afugentar as felinas abrindo um boco assustador quando chegam perto...No meu banheiro moram dois peixes beta, Tup e sanso, cada um no seu aqurio. Ambos so muito solitrios e adoram o repertrio que eu canto no chuveiro. Meus filhos construram duas gaiolas engraadas, com uma passagem secreta, para os dois esquilos mongis, Mahatma e Inezita, se visitarem quando quiserem, mas cada um mantm sua prpria toca peculiar. Mahatma organizado, passa tempo meditando e sua gaiola est sempre limpinha. J Inezita bagunceira e , quando acaba a comida dela, passa pelo tnel do amor e vai afanar o rango do namorado distrado. As gatas Mike adoram bisbilhotar a vida dos esquilos. Qualquer movimento deles, os trs ficam excitadssimos e sem pulando pela casa....


F - Ufa...Acabou a lista?
Rita - H tambm o Ziggy, um pastor belga que mora no quintal de uns amigos. Como um cachorro de grande porte, ele precisa de um lugar maior para correr vontade, onde o Ziggy costuma varrer tudo com o rabo quando chega. um gigante gentil, as pessoas morrem de medo dele, mas quem conhece sabe que no ataca nem mosca...E, alis, acabei de adotar uma gatinha de rua que se chama Dona Clotilde, parece um ratinho de to pequena. Ah, se eu tivesse um stio, aquilo ia virar um zo.



VIDA DE CACHORRO
(Rita Lee, Arnaldo Dias Baptista e Srgio Baptista)

Vamos embora companheiro, vamos
Eles esto por fora do que eu sinto por voc
Me d sua pata peluda, vamos passear
Sentindo o cheiro da rua, me lamba o rosto, meu querido, lamba
E diga que tambm voc me ama eu quero ver o seu rabo abanando
Vamos ficar sem coleira
Vamos ter cinco lindos cachorrinhos
At que a morte nos separe meu amor!

Msica integrante do lbum " Mutantes e Seus Cometas no Pas dos baurets" (1792) lanado pela Universal.

 




 Arquivo:
  Adriano Echeverria e Maria Elisa Cappellano
  André Francisco Rosa
  Rita Lee - madrinha dos inocentes

  Animais eternos? 
 
Trauma passageiro
  Lição de convivência
  Moda cruel
  Entrada permitida
 
Um passo rumo ao aperfeiçoamento genético
  "Roberto Tripoli explica a lei do RG animal"
  Sou contra os homens, no os ces
  Morte desnecessria

  Uma viagem ao inferno
  Castração,questão de respeito