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 entrevista
Lição de convivência
Segundo o psicólogo mineiro Jacob Pinheiro Golberg, conviver com animais domésticos traz resultados positivos ao ser humano

POR JUSSARA LOPES
FOTOS MARCOS CORAZZA

O dr. Jacob tem, hoje, uma relação de carinho com Luan, o mini-poodle da família. Mas nem sempre foi assim. Desde criança, quando vivia rodeado de bichos em Juiz de fora, MG, sua tolerância com animais foi baixa. "Tinha ciúme do amor que meu pai dedicava aos bichos". O tempo passou. Os três filhos queriam ter um cão. A idéia não o agradou, mas foi voto vencido. As crianças escolheram um filhote portador de um problema físico. "Eles preferiram esse, por solidariedade. E gostei disso." Porém o estranhamento continuava, até o cão adoecer e Jacob tomar a providência que salvou a vida do bichinho: trocou a ração pela carne. "Foi sensacional. Até o veterinário aprovou. O cão ficou muito grato, e nossa relação mudou. Não mantenho intimidade com ele, mas tenho carinho e o respeito." Por tudo isso, o psicólogo se diz confortável em falar sobre a relação pessoa/animal.

FOCINHOS - Por que é importante ter uma animal doméstico?
JACOB - A relação entre o ser humano e o animal caracteriza o contato da pessoa com seus instintos. É o que se chama de instinto animal, que ressalta o lado infantil da personalidade.

F - Existe alguma relação entre a escolha da raça do animal e a personalidade do dono?
J - Na escolha do animal, a pessoa freqüentemente elege um que corresponda a uma formulação da sua personalidade. O indivíduo agressivo escolhe ou um animal passivo para fazer uma compensação ou um agressivo para fazer uma somatória.

F - Festa de aniversário, enterro, compra de roupas, acessórios... são procedimetnos normais ou são vistas como doença do dono?
J - Festa de aniversário, não acho patologia, a não ser que haja um exibicionismo mórbido...Enterro eu acho muito positivo. Porque realmente houve uma perda e precisa ter uma solenidade seguida de luto. As roupas também não acho exagero, no frio é natural que o animal seja agasalhado. A patologia é o que a gente pode chamar de zoofilia erótica, quer dizer a relação sexual com animal.

F - A dependência de uma pessoa por um animal de estimação é positiva ou negativa?
J - A dependência é fundamental. O que precisa tomar cuidado é com a dependência histérica, a que impede a pessoa de tocar sua própria vida, aponto de não sair à noite porque tem de ficar acompanhando o cachorro.

F - Aquela história de que em lugar de um animal, a pessoa poderia adotar uma criança, como fica?
J - Esse raciocínio é viciado. Nada impede que uma pessoa tenha um cão e adote uma criança. É um raciocínio preconceituoso em relação ao animal
. Todos temos direito de preencher nossas vidas com elementos de afetividade.

F - E quem fica o dia todo fora e tem um animal? Como fica?
J - A relação humana não é quantitativa, é qualitativa. A pessoa pode ficar o dia inteiro na casa coabitando com o animal, e eles não trocaram afeto, em compensação pode ficar 10 minutos e trocarem.

F - O que o ser humano aprende com o animal?
J - O grande aprendizado é entender os códigos de diferença e se conscientizar que existe uma outra linguagem, outra sensibilidade, outra expressão. Ou seja, ter essa humildade de compreender que existem manifestações tão interessantes e intensas quanto a nossa.

F - Para as crianças, faz diferença pegar um animal filhote ou adulto?
J - Isso é indiferente. Para eles o que importa é o grau de afetividade. Mas é interessante que as crianças possam criar os animais, pois é o contato com a diferença. Isso é educativo e pscicologicamente pode amadurecer a personalidade infantil.

F - Cuidar de um animal dá noção de responsabilidade para a criança?
J - Sim, mas também dá dimensão da sua importância. Em geral, a criança depende do adulto, de repente percebe que o animal, para determinados movimentos, precisa dele. Aí a criança se sente importante.

F - Quando a criança é portadora de uma deficiência física ou mental, o contato com os animais é importante?
J - É muito importante. Porque ela vai encontrar outra manifestação da natureza diferenciada.

F - As crianças andam trocando um bicho de estimação por computadores. Isso é normal?
J - O animal e o computador são intermediações entre o indíviduo e o mundo que o cerca. Cada pessoa escolhe um instrumental. Uma criança mais racional vai procurar um computador. Outra, mais instintiva, procura um bichinho de estimação.

F - Quando os pais se separam ou ficam ausentes o dia todo, a criança da casa tem mais necessidade de ter um animal como companheiro?
J - Sim, é legal que tenha. Porque o animal nessa hipótese preenche uma necessidade não só de afeto, mas também de segurança, aquilo que se chama de presença viva. A criança se vê cercada não só por móveis, mas por manifestações de vida.

F - Um animal de estimação funciona como um agregador da família?
J - Sim. O animal freqüentemente é um elemento de harmonia, mas principalmente um elo de tansmissão de linguagem. Tanto é que se tenho acompanhado casais que se separam, e em vez de discutir a guarda do filho, discutem a do animal...

F - Como fica o dono do animal quando o bicho some ou morre?
J - Aí se repete a relação do indívíduo com a sua fragilidade. Ele projeta no animal seus medos, angústia. Quando o animal morre, ele precisa trabalhar a constatação de sua impotência e da frustação diante do inevitável.

F - Quem tem medo de cachorro em geral passou por algum trauma?
J - Em geral, sim. Ás vezes são as pessoas que têm medo do seu próprio instinto animal. Freqüentemente quem tem medo do cachorro, na verdade tem é ódio do bicho. E, com medo de ser atacado pelo cachorro extrapola seu sentimento de raiva. Na realidade, o que ele gostaria é de matar o cachorro. Só que ele não admite isso, pois não é politicamente correto, então ele fantasia de que o cão vai atacá-lo.

F - É comum as pessoas terem sonhos e pesadelos com animais? Isso tem algum significado especial?
J - Sim. Eles refletem o medo da relação de cada um com seu animal interno, que não agüenta mais ficar preso dentro da gente. Quando se sonha que se está abraçando e beijando uma animal, na verdade é o acordo entre nós e esses sentimentos recalcados.

F - Tem alguma explicação pela preferência de pessoas por animais exóticos como cobras, aranhas, iguanas?
J - Em geral é a vontade de se relacionar com objetos de desejo e a libido exótica.

F - Seria fetiche?
J - Fetiches. Fantasias idiossincráticas de manifestação de libido fora do padrão.

F - Essas pessoas são normais?
J - Sim. São indivíduos que estão colocando para fora seus desejos recalcados. Mas é prudente fazer uma análise da razão que leva uma pessoa a ter uma cobra de estimação.

F - Por que as pessoas têm vontade de matar um animal?
J - Às vezes são experiências traumáticas por que elas passaram na infância. Ou então um ódio gratuito. O ser humano é habitado por sentimentos irracionais.

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