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 entrevista
Um passo rumo ao aperfeiçoamento genético
Veterinários de várias cidades e especialidades estão trabalhando juntos. O objetivo: garantir uma vida mais saudável e feliz para cão e dono

A perfeição não existe, já que a genética também é uma caixinha de surpresas. Mas segundo o veterinário Israel Bleich, a informação pode ser uma valiosa aliada na cruzada em prol do melhor amigo do homem. Bleich, coordenador técnico do CEPAV, um dos mais conceituados centros de diagnósticos veterinários do Brasil assumiu também a coordenadoria da Comissão de Genética da Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), um grupo recém-criado de veterinários em uma missão quase impossível: domar as doenças geneticamente transmissíveis que poderiam ser evitadas e que hoje atingem um grande volume de cães brasileiros. "O trabalho será árduo, mas com os nossos esforços e com a ajuda dos criadores, conseguiremos formar futuras gerações de cães mais saudáveis", diz, confiante.

Focinhos: Quais as vantagens da utilização da inseminação artificial para a criação?
Israel Bleich: São inúmeras. Uma delas é que você não precisa ficar transportando machos e fêmeas, inclusive internacionalmente. Os criadores de raças mais raras que precisavam ir para EUA e Europa para conseguir linhas de sangue diferentes podem agora, em vez de importar determinados animais, importar só o sêmen e inseminar. A renovação de linhas de sangue é muito importante, pois diminui os inbreedings (cruzamentos próximos) e consequentemente leva a uma diminuição das doenças geneticamente transmissíveis em um ponto final.

F: Quem compra sêmen de um animal está trazendo também todas as suas informações genéticas?
IB: Hoje em dia, o animal que tem seu sêmen congelado já passou por uma enorme triagem genética: chapa de displasia, testes de DNA para determinados tipos de doenças, é um animal que tem controle genético dentro dos limites técnicos, que passou por todos esses testes e cuja possibilidade de gerar uma doença genética diminui muito. No entanto, a genética é um mistério e já vi acontecer casos de animais geneticamente controlados que transmitiram determinadas doenças para seus descendentes.

F: A inseminação artificial já é uma realidade em nosso país?
IB: Sim, já fazemos isso há décadas. Há muito tempo atrás, era com sêmen fresco e hoje em dia a técnica mais usada é a do sêmen congelado. Com isso, é possível prever que o mercado, as importações e exportações vão crescer bastante.

F: Mesmo para animais de estimação?
IB: Sim. Nos Estados Unidos já movimenta milhões de dólares por ano.

F: Mas transações que envolvam essas cifras não são mais passíveis de fraudes?
IB: Acho muito difícil. Hoje em dia, temos o DNA e por meio dele podemos controlar absolutamente tudo. Esse é um dos projetos de nossa comissão a longo prazo, tipar por meio do DNA os principais padreadores e matrizes, aí se tem controle absoluto sobre o registro genealógico que evita em 100% as fraudes. Os animais que cedem material genético (sêmen, embriões, clones e células para clonagem), obrigatoriamente têm de ter exame de DNA, que por ser único, acaba com qualquer chance de fraudes.

F: Como será feito esse controle no Brasil?
IB: A função de nossa comissão é simplesmente informar, não fiscalizar nem controlar. Quem tem de ter um código de conduta que prevê todos os problemas relacionados a falsificação e mau uso de documentos é a CBKC. A comissão tem caráter informativo, de levantar a questão das doenças geneticamente transmissíveis, doenças que atacam a espécie canina e informar os criadores.

F: De onde surgiu a idéia da formação da comissão de genética?
IB: Existe uma grande carência técnica no meio cinófilo. Em algumas ocasiões falamos a respeito disso, mas então não havia nada formalizado. Há anos venho acompanhando o trabalho da Canine Health Foundation, uma fundação que se originou de um grupo de veterinários como o nosso que hoje tem muitos recursos, como financiamento de projetos de pesquisa. Nossa idéia é nos transformarmos em um grupo cada vez mais forte que possa sugerir uma série de regras dentro da cinofilia em favor da criação.

F: Essa também é uma preocupação em outros países?
IB:
Na maioria dos países existe um grupo com esse caráter. Cada vez mais a cinofilia se transforma em uma atividade técnica nos outros países, deixando de ser um hobby para se tornar um modo de vida. Em nosso país há poucos criadores profissionais, em contraponto aos Estados Unidos, onde há milhares de pessoas que vivem da cinofilia. Aqui no Brasil ainda é primário, temos um trabalho muito longo pela frente, principalmente de conscientização do criador, que é nosso objetivo: levantar a questão das doenças geneticamente transmissíveis e chamar os criadores dentro de cada clube de raça e junto com eles ver como podemos diminuir a incidência de cada doença específica em sua raça. Nós, como técnicos, temos de entrar em cada clube, informar os criadores e tentar junto com eles reverter o processo. Vamos orientar os criadores para que eles possam tomar iniciativas de modo a evitar esses problemas.

F: Como serão organizados os trabalhos do grupo?
IB:
É importante salientar que o grupo ainda está em formação. Dividimos em quatro etapas. A primeira foi contatar e convidar especialistas em determinadas áreas específicas - oftalmologia, cardiologia, nefrologia, dermatologia, odontologia, entre outras - para trabalharem dentro da comissão. Essa primeira etapa já está formalizada, já temos o grupo inicial, mas o veterinário que quiser entrar, as portas estarão abertas. Esse núcleo já formado já começou a trabalhar, a levantar determinados problemas dentro de uma maneira genérica dentro de cada uma das especialidades. Os trabalhos serão feitos por blocos, dentro de determinadas características específicas. Por exemplo, os veterinários da ortopedia vão trabalhar com displasia de cotovelo, displasia coxo-femural, com determinadas características de uma forma geral, para todas as raças. Na segunda etapa, nós ampliaremos nosso campo e trabalharemos com veterinários criadores. Ou seja, se você for veterinário e criar labradores, você será convidado a fazer um levantamento dos problemas mais sérios dentro de sua raça, e assim será com a grande maioria das raças. A terceira é reunir os veterinários criadores ou que tenham interesse específico em uma determinada raça com os veterinários especializados e começar a trabalhar em cima de documentos - vamos levantar papel, produzir informativos para a comunidade cinófila em geral. A última etapa do processo é atingir o consumidor final, quem está comprando o animal, pois é ele quem está levando o "problema" para casa. Hoje essa pessoa está totalmente desamparada em relação a legislação, cuidados, ela não sabe o que está comprando. O projeto bastante ambicioso, que vai desde a CBKC até quem vai comprar o animal.

F: Dentro disso, a pessoa que comprar um cão terá uma garantia sobre ele?
IB
: A idéia é fornecer um determinado nível de garantia de que aquele cão que você está comprando é um animal mais saudável. Nem tudo na genética é previsível, mas nossa idéia é controlar cada vez mais e mais do que controlar, é informar. O criador e o proprietário são muitos desinformados em relação aos problemas que seu animal possa ter. O que temos de fazer é disseminar informação técnica para um público leigo. Estamos formando futuras gerações de animais mais saudáveis e com menos problemas.

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