Focinhos Online - A cara dos bichos na Internet
   
 entrevista

Adriano Echeverria e Maria Elisa Cappellano

Dois publicitários, Adriano Guaraná Echeverria e Maria Elisa Cappellano, se conhecem e decidem abrir uma agência. Até aí, tudo normal. Porém, justamente nesta época, Adriano estava de mudança e não poderia levar para o novo apartamento o fiel companheiro Maná (um simpático vira-lata). O jeito então, foi tornar realidade um outro sonho comum à dupla: levar animais para o ambiente de trabalho. Para deixar a empresa com jeitão de lar e ainda oferecer conforto para o bicho, alugar uma casa era fator primordial. E assim, há três anos e meio atrás surgiu a Toro, uma agência 'animal'. "Na verdade a agência começou comigo, com a Elisa e o Maná", brinca Adriano. Em meio a computadores, mesas de criação e diversos projetos, clientes e funcionários encontram pelos corredores além de Maná, Godofredo e Boris - um yorkshire e um golden retriever, respectivamente. "Seria até uma hipocrisia a gente acreditar tanto nessa força vinda dos animais e não tê-los por perto", diz Adriano. O amor pelos animais é tanto, que até o nome da agência faz menção a um deles. "A empresa tem um conceito muito humano, que é característico aos sócios, por isso escolhemos um animal para ser nosso símbolo. O touro simboliza trabalho e força", diz Elisa. Para a dupla, e para toda a equipe que trabalha na agência, o trabalho flui muito melhor com os peludos por perto e o ambiente se torna muito mais descontraído e familiar. "A gente tira do animal, da natureza, todas as nossas idéias e nada mais justo do que termos esses animais também aqui", comenta Elisa.

A paixão de Adriano e Elisa pelos animais vem de cedo. Ambos sempre conviveram com bichos, sejam eles cães, gatos, tartarugas, pássaros e até cavalos. É tanta dedicação que além do trabalho na área de publicidade, os profissionais ainda encontram tempo para ajudar bichinhos que foram abandonados. "Uma vez pegamos um gatinho que estava morrendo, cego de um olho. Levamos para o veterinário, depois trouxemos para a agência para ficar com a gente. Só que gato é gato e quando ele ficou bom, fugiu. Mas fugiu gordo, feliz e saudável", conta Echeverria. Foi assim que Bóris foi adotado. Abandonado pela dona que mudaria de residência, o cão foi deixado trancado durante meses em um banheiro. "Ele passou seis meses naquele cômodo. Quando chegou na agência tinha até fungo no pêlo por causa da umidade do lugar". O cão então foi devidamente tratado e hoje vive na Toro. Ao contrário de Godofredo, que vai para casa de Elisa e volta para agência de vez em quando, Bóris e Maná moram na empresa. Nos finais de semana, Adriano e Elisa têm o compromisso de ir vê-los, levá-los para passear, como em dias normais. E como o negócio já começou com a proposta de manter os bichos livres no ambiente de trabalho, eles avisam: "aqui só trabalha quem gosta de cachorro".

Texto e fotos por Kele Santana

Maria Elisa, com Godofredo no
colo, e Adriano brincando
com Bóris

Focinhos: De quem foi a idéia de levar os cães para o ambiente de trabalho?
Adriano: Na verdade foi uma necessidade. A gente já tinha animais e o local que procurávamos para a agência tinha de se adaptar a eles. E outra: também achamos muito saudável para o ambiente em que a gente trabalha, uma agência de propaganda, ter um bicho passeando para lá e para cá. Isso estimula, faz as pessoas se sentirem mais à vontade, mais em casa. Não há motivo para não os ter. Isso estimula a criatividade.
Elisa: Essa é uma particularidade da nossa atividade. No processo de criação, principalmente, às vezes você precisa sair daquela coisa maçante, da frente do computador. Olhar pros cachorros brincando, interagir com eles, enquanto as idéias vão vindo só estimula. A casa ainda está em reforma, mas o plano é ter um espaço só para isto, para estimular a criatividade, fora do escritório, sem telefone tocando. Sem falar que o animal tira da gente qualquer estresse.

Fo: Como foi a adaptação deles na agência?
Adriano: O Maná (vira-lata) é um pouco mais reservado. Se deixar ele fica o dia todo do meu lado, ou dentro do carro, que ele adora. Ou então fica perto de pessoas que ele sabe que gostam de cachorro. Não tive problema nenhum com ele. O Boris já não, é bem social, ele vai de pessoa em pessoa recolhendo um pouquinho de carinho e é meio estabanado, até por conta do que ele sofreu preso. A gente imagina como deve ter sido então dá essa liberdade a ele.
Elisa: A adaptação dele foi, e ainda é, a mais difícil, até porque ele ficou muito tempo preso e veio para cá com uma carência afetiva muito grande. Então às vezes ele não deixa trabalhar, puxa a mão da gente para dar carinho, já comeu o sofá da sala, o orquidário. Mas está melhorando

Adriano, Bóris e Maná na área externa,
onde havia um orquidário até a
chegada do Golden Retriever

Fo: Eles receberam algum treinamento de obediência?
Adriano: O Maná é extremamente inteligente e tem muito "simancol" quando falamos com ele. Se pedir para ele: "quieto!", ele fica. O Boris está tendo treinamento porque precisa muito. A gente entende essa "alucinação" dele, de querer brincar, comer as coisas, porque ele sofreu. Mas agora ele é nosso. Ele pode até destruir tudo que ainda assim daqui ele não sai.
Elisa: Inclusive a gente tem um projeto paisagístico para a empresa que está sendo postergado por causa dele. Enquanto ele não estiver bem adestrado, não dá para fazer, porque a gente também não quer ficar tolhendo ele toda hora.

Fo: A diferença de raças em algum momento foi um obstáculo para mantê-los juntos?
Elisa: Eu fico abismada de como o animal é inteligente. Os dois que são maiores (Maná e Boris) brigam de vez em quando, o que é bem normal pois são machos e tem toda uma questão de demarcação de território. Mas nenhum dos dois jamais brigou com o Godofredo (Yorkshire). E o Godô late, rosna, mas eles sabem que há uma desvantagem de tamanho. Se o Maná der uma mordida no Godofredo, o Godô morre!
Adriano: O Boris brinca com o Godofredo, e é o Godô que machuca o Boris...rs...E o Boris não faz nada.

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A equipe de publicitários da agência posa
para foto com os animais ao fundo.
Nesta, só Godô saiu ganhando
um colo...

Fo: Eles têm um preparador físico que os leva para passear e exercitar. Foi recomendação de alguém?
Adriano: Foi outra necessidade nossa. A casa é grande, mas mesmo assim para o Bóris, se ele correr o dia todo aqui dentro ainda é pouco. Então o preparador passeia com eles e dá treinamento de obediência.

 

"O animal se relaciona com qualquer um, não existe hierarquia para o gosto. Ele gosta de quem o trata bem e pronto" - Adriano Echeverria.

Fo: Em que os cães ajudam na criação dos projetos, das propagandas?
Adriano: Acreditamos, sim, na ajuda que o cão dá no processo criativo para a campanha publicitária, à medida que ele deixa o ambiente melhor. Um ambiente saudável, com cara de casa, animais soltos, facilita da vida das idéias. Quando você está meio cansado, tem que criar uma propaganda, você pensa, pensa, pensa e não vem nada. Aí você dá uma volta, brinca com o cachorro...Ou às vezes nem isso, parece que o cachorro sente quando a pessoa não está bem e vai lá, fica perto. Isso ajuda muito, com certeza.

Fo: E é verdade que cães ajudam a vender?
Adriano: Não é porque a gente tem cachorro que fica empurrando cão em tudo quanto é campanha. A gente fez até hoje apenas uma com animais, mas não foram com os nossos. Mas sabemos que cachorro e criança são as imagens que mais dão retorno para qualquer tipo de campanha publicitária. Ainda temos o sonho de um dia fazer uma campanha publicitária em que os nossos cães apareçam, mas só no dia em que a gente achar que precisa. O Boris participou da gravação de um dos programas "O Aprendiz", que deve ir ao ar por estas semanas.
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Elisa mostra seu local de trabalho e chama
Godô de "cão de mesa"

Fo: Algum deles já comeu algum projeto importante?
Elisa: Só uma vez quase aconteceu um desastre. Eu tinha que apresentar um projeto e quando entrei na sala para buscar o Bóris estava mordendo os CDs da apresentação, que já estavam prontinhos! Felizmente deu tempo de salvar.
Adriano: Projeto mesmo eles nunca comeram, mas já babaram bastante...


Fo: Qual a reação dos clientes quando chegam à agência e se deparam com os cães?
Adriano: Perguntamos se a pessoa tem medo de cachorro, porque pode acontecer de alguém ter um trauma. Quando marcamos uma reunião com cliente, geralmente eles já são avisados da presença deles. O Maná é muito educado. Se tiver gente aqui na sala de reunião ele fica quietinho no canto dele. O Bóris já é mais estabanado, às vezes temos que prendê-lo.
Elisa: Mas a proposta não é manter o cachorro aqui preso. Até pensamos em comprar um Rottweiller para deixar na agência. Mas criar um animal preso o tempo todo, do qual as pessoas tenham medo, para só soltar a noite é uma judiação.


Maná mostra um de seus
recantos favoritos: as
costas da cadeira de
Adriano

Fo: Vocês já tiveram problema envolvendo algum funcionário?
Elisa: Quando fazemos a seleção perguntamos se a pessoa gosta de animal. Não por conta de algum preconceito da nossa parte, mas porque existem características de pessoas que não gostam de animais - e isso a psicologia explica - que para a nossa empresa não funcionam. Podem servir perfeitamente bem em outra empresa, para nós já não se enquadra. Quando resolvemos montar a empresa formatamos muito bem nossos conceitos de trabalho e os seguimos desde então. Este é um deles.

Fo: Vocês têm animais em casa também?
Elisa: Eu sempre tive. Tudo quanto é animal doméstico que você possa imaginar eu já tive em casa. Hoje tenho dois gatos, uma tartaruga e o Godô que vem comigo para cá. E quando ele não vem, os funcionários me cobram.
Adriano: Como moro em um flat só tenho mesmo o Bóris e o Maná que ficam aqui na agência.

Fo: Já devem ter ocorrido várias circunstâncias engraçadas envolvendo vocês, os clientes ou os funcionários, não?
Adriano: Dia desses, chegou aqui uma fornecedora, foi até a janela da minha sala e viu o Bóris no quintal brincando. Ela falou: "ai, que lindo!". Na hora o Bóris saltou e grudou a boca na manga da blusa dela. Não foi com a intenção de machucar, mas no sentido de não querer que ela fosse embora. E a moça pedindo para ele largar e nada. O tempo foi passando e nem sinal do Boris. Depois de uns minutos a coisa começa a ficar chata. A moça pedindo "larga, larga!", sem querer ser agressiva mas não resolvia. Foi meio chato, mas tudo acabou bem.
Elisa: O Godofredo adora botas femininas. Não pode ver uma bota que quer "namorar" com ela. Às vezes é meio constrangedor, mas fazer o quê?

 
Publicitários e seus cães: uma história de
amor
Fo: O que de mais importante vocês acreditam que se pode aprender na convivência com os animais?
Elisa: Principalmente tolerância, procurar entender o outro. A gente pensa: "por que o cão age assim?", "por que ele comeu o sofá?". É lógico que tentar entendê-lo não nos tira a obrigação de educar, repreender, ensinar que ali não pode mexer, não pode morder. Ter tolerância é fundamental e é justamente isto o que as empresas exigem dos funcionários.
Adriano: É um aprendizado de muito respeito também. E outra: o animal não quer mais do que ele precisa, ele convive com o necessário, isso é bom até pra gente ensinar as pessoas a economizar. O animal é uma grande escola.




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