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André
Francisco Rosa
Não
fosse por um problema no joelho, quando tinha apenas 17 anos, André
Francisco Rosa poderia ser hoje um jogador de futebol. Felizmente, o que
a princípio parecia um problema, acabou mostrando-se uma oportunidade
de ouro para André que descobriu cedo seu verdadeiro dom: lidar
com animais. Contratado para trabalhar como ajudante do adestrador Gilberto
Miranda, um dos mais respeitados no país, André aprendeu
tudo o que sabe na raça. Hoje, quase 11 anos depois, é um
dos melhores do ramo no país e abriu seu próprio estabelecimento,
a Cães Maravilhosos, que treina cães, entre outros serviços.
Dentre suas atividades estão o agility para cães, o condicionamento
de animais para comerciais e filmes (foi André quem treinou a galinha
do filme "Cidade de Deus") além do adestramento. E vem
mais por aí: em breve ele terá no site da sua empresa vídeos
de como educar cães em casa e está desenvolvendo equipamentos
para agility de gatos. Para André, seu segredo de sucesso está
apoiado em duas coisas: carinho e perseverança. "Cada cão
é uma história".
Texto
e fotos por Kele Santana
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André
e o border collie Chico fazendo agility |
Focinhos:
Você só começou a trabalhar com animais por causa
de um problema no joelho que o tirou de uma possível carreira no
futebol. Você acha que teria sido em campo tão bom quanto
é hoje em dia com os animais?
André Francisco Rosa: Eu acho que não, não
seria tão bom. Eu vim descobrir que eu tinha esse feeling,
esse dom, com 17 anos. Tem pessoas que tem a sorte, como eu tive, de descobrir
ainda cedo. Outras pessoas vão descobrir com 40, 50 anos, mas nunca
é tarde. Mas eu acredito que se tivesse continuado no futebol não
seria tão bom em campo quanto aqui, com os animais. Foi um problema
que acabou virando uma grande oportunidade.
Fo: Você
teve sorte de já começar com uma pessoa que entende muito
do assunto.
AFR: Sim, o Gilberto Miranda. Ele ainda trabalha com adestramento,
é uma pessoa bem conceituada. Eu sigo as mesmas bases que ele.
Fo: Qual
foi seu primeiro "cargo" quando você começou a
trabalhar com o Gilberto Miranda?
AFR: Comecei como ajudante, limpando canil. Hoje eu digo para os meus
ajudantes que eles têm mais sorte do que eu tive, porque eu, sempre
que posso, estou orientando, e eu tive que aprender quase tudo na raça.
Mas eu tinha um dom e tinha que desenvolver. Até que foi rápido
e fácil.
Fo: Como
foi seu primeiro dia? Você tinha medo?
AFR: Foi complicado. Na verdade eu não tinha medo, mas na
época a raça do momento era o rotweiller e o meu primeiro
contato foi com logo dois animais desta raça, de dois anos cada
um. Ali foi onde eu descobri que eu realmente tinha um dom, porque ao
mesmo tempo em que eu tinha medo, eu tinha uma segurança e uma
vontade de aprender muito maiores que o medo. Então eu encarei
e me dei bem. Treini ambos, sem problemas.
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O border
collie Garrincha faz pose para foto |
Fo: Na
sua casa você tem muitos animais ou já passa tempo suficiente
com os animais de outras pessoas?
AFR: Tenho 10 cachorros, algumas galinhas e outros bichos. Como
eu tenho pouco tempo para ficar com eles, os cães dormem comigo,
dentro de casa. Eu tenho um sítio, em Cotia, onde também
treino cães, com um canil, mas deixo eles dentro de casa para compensar
a falta tempo para brincar com eles.
Fo: Você
treina animais para comerciais. Que tipos você mais treina?
AFR: Já treinei galinha (a que aparece no filme "Cidade
de Deus" foi condicionada por ele), borboleta, porco, bode, pombos...Na
verdade é feito um condicionamento. O produtor do comercial pede
um animal para realizar o comercial e eu o condiciono para fazer aquilo.
Uma vez, eu precisava realizar um condicionamento aparentemente muito
simples mas na hora foi bem complicado. Um cão precisava passar
por cima de uma mulher sentada numa poltrona. Quebrei a cabeça
para fazer. Mas no fim deu tudo certo, apesar de ter me dado muito trabalho.
Fo: O
problema pode ter sido a falta de contato diário com o cão?
AFR: Pode ser. Mas é que às vezes me pedem para que
um cão faça determinado tipo de coisa que não tem
nada a ver com a característica genética dele. Por exemplo:
me pedem que eu treine um cão de caça para pastorear, um
de caça para ser de companhia. Não que ele não seja,
não consiga, mas não é a principal característica
da raça e aí acaba complicando.
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Treinamentos
com frisbie são sucesso
garantido entre os bichos da Cães
Maravilhosos |
Fo: É
verdade que o border collie é o cão mais inteligente que
existe?
AFR: Eu concordo com essa afirmação, porque quando
fizeram experimentos ele foi o cão que, para trabalho, foi o que
mais rápido se desenvolveu (de 100 comandos, responde em média
de 97 deles). Mas não que o border vá ser um cão
de caça, ele é de pastoreio. Só que mesmo no pastoreio
ele se desenvolve mais rápido que um cão de caça
assimilaria os treinamentos para caça.
Fo: Tem
alguma raça que seja mais difícil de adestrar?
AFR: Eu não trato o cão como uma raça, mas
sim como um "indivíduo". Tem border tão difícil
de treinar como um beagle, e beagles mais fáceis de treinar que
borders. É a forma como ele é criado, educado em casa, que
vai determinar se ele é difícil ou fácil de treinar.
Fo: E a
partir de que idade se pode começar a treinar o cão?
AFR:
A partir dos dois meses de vida, que é a idade que o filhote geralmente
sai de perto da mãe e vai morar numa casa, o cãozinho já
pode ser educado. É preciso deixar claro que educar é uma
coisa, treinar é outra. Antes de ter os problemas é melhor
evitar que eles aconteçam. Como? Educar desde cedo. Uma pessoa
chega para mim e fala: "meu cachorro faz xixi no lugar errado".
Aí eu pergunto: "quantos anos tem o seu cachorro?". E
a pessoa: "dois anos". Pra pessoa, o cachorro está fazendo
no lugar errado, mas para o animal, não. Porque foi sempre ali
que ele desenvolveu as necessidades fisiológicas. Se a pessoa,
quando compra o animal, tem um tempinho para ensinar isso, no futuro,
o cão vai aprender onde é o lugar certo para fazer as necessidades.
E isso serve para tudo. Se o cão for direcionado desde cedo quando
o treinamento, por volta dos seis meses, ele vai ficar mais suscetível
à aprendizagem.
Fo: E qual
a idade limite?
AFR: Para agility, se você me perguntar se um cão
de 13 anos pode fazer eu direi que sim, mesmo porque os cães acabam
rejuvenescendo com esse treino. Mas não seria o caso de reeducar,
porque já seria tarde. Para treinamento, o ideal seria até
os 8 anos, para o bem estar dele. Mas fazer com que ele deixe hábitos
como defecar em local errado, urinar, sentar, aí é bem mais
complicado, mas não impossível.
Fo: O que um bom treinador precisa ter em mente para realizar um bom
trabalho? AFR:
Carinho, perseverança, porque cada cachorro é uma história
diferente. Eu trabalho com isso há mais de 10 anos e todos os dias
eu aprendo coisas novas.
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Chico
mostra suas habilidades saltando
sobre o obstáculo |
Fo: Você
acompanha os animais nas gravações, nos sets de filmagem?
AFR: Sempre acompanho, independente se a cena é simples
ou complicada. No set de "Cidade de Deus" eu estava lá,
a todo momento. Em algumas cenas eu tive que participar, mas não
mostram meu rosto, apenas minhas pernas. É um desafio a mais, foi
interessante, afinal eu tenho as galinhas mais famosas do cinema...rs...
Fo: A
Cães Maravilhosos está implementando um tipo de "adestramento
online". Como vai funcionar?
AFR: Eu vejo que as pessoas, por mais que elas venham à
escolinha, têm dificuldade com o cachorro em casa, no dia-a-dia.
A cada dia o cachorro faz mais parte da família, mas as pessoas
não têm o mínimo de noção de como ter
segurança, por exemplo, dentro do carro, podendo até ter
problemas com o animal durante passeios. E não só no carro,
mas também dificuldade em fazer o cachorro ficar quietinho do lado
dela quando estiver lendo um livro, ou mesmo não pular na mesa
quando a família estiver comendo, fazer as necessidades no lugar
certo. Eu vejo esses "problemas" e penso que, se as pessoas
tivessem um pouco mais de dedicação, seriam super fáceis
de serem resolvidos. Então eu vou fazer este curso para as pessoas
verem, em vídeo, como agir para facilitar a vida com o cão.
O interessante é ilustrar, já que as imagens falam mais
que as palavras. O curso vai ser em vídeo porque a pessoa vê
a imagem e pensa: "puxa, meu cão faz igualzinho", aí
ela já sabe o que fazer para evitar. O curso vai estar no ar em
breve no site da Cães Maravilhosos.
Fo: Como
funciona o treinamento de agility para gatos? Onde surgiu, uma vez que
o mais comum é ouvirmos sobre agility com cães?
AFR: Eu já estou desenvolvendo os obstáculos e logo
mais vamos disponibilizar para quem estiver interessado, aqui na Cães
Maravilhosos. Tudo começa com o condicionamento, se o cão
pode fazer porque não o gato? Pela agilidade que ele tem basta
condicioná-lo. Eu já tinha ouvido falar que havia nos Estados
Unidos, mas nunca vi. Sempre tive vontade, desde que comecei a fazer agility
para cães, em fazer algo para gatos, mas até então
não tinha tempo. Agora estou desenvolvendo.
Fo: Nestes
mais de 10 anos de trabalho você já deve ter acumulado muitas
experiências marcantes. Qual foi o maior deles?
AFR: Nossa, eu já estou todo marcado por mordidas, tenho
marca de mordida de leão...Hoje sou menos atacado que na época
em que comecei porque a experiência conta. Atulamente lido com cães
talvez mais agressivos do que há 10 anos atrás, mas sei
como lidar com eles. Mas o momento que me marcou bastante foi quando eu
fui atacado por um Akita. Na hora eu não vi motivo, mas depois
fui entender. Havia uma cachorra no cio no local onde ele estava e quando
eu fui buscá-la para treinar ele já me atacou, sem eu esperar.
Ele mordeu um braço, quando fui me defender ele mordeu o outro.
Aí eu saí correndo, ele conseguiu escapar e me atacou de
novo! Na hora foi aterrorizante e isso me marcou, pela agressividade que
ele tinha e eu não conhecia, apesar de também treiná-lo.
O Akita não é dócil, tanto que no Japão eles
são conhecidos como "cães ninja", mas era algo
que eu realmente não esperava.
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Garrincha
em um dos seus brinquedos
favoritos |
Fo: Houve
uma situação muito engraçada?
AFR: Houve uma vez em que eu estava trabalhando e meu carro quebrou
com o Chico e o Garrincha (dois border collie do André). Eu parei
em um mecânico e pedi para ele olhar o carro enquanto eu fui ligar
para a escolinha avisando que ia me atrasar. Fiquei no telefone, o mecânico
entrou no carro, mas quem disse que ele saía? Um tempo depois eu
lembrei: "os cachorros!". Quando fui ver os cães estavam
em posição de ataque e o mecânico parado, sem se mexer.
Aí tirei o rapaz dali e ele: "pô, mas você não
avisou que tinha cachorro!". Eu pedi desculpas, disse que na hora
não lembrei. Até hoje, se eu coloco os dois no carro ninguém
entra, porque eles são cães de guarda.
Fo: Que
mensagem você gostaria de deixar para os leitores do portal Focinhos?
AFR: Que procurem ter mais tempo para os animais. Que pensem antes
de comprar o animal se terão tempo para eles. Eu observo que muitas
pessoas não têm tempo nem para elas que dirá para
um animal! Aí ela acredita que um treinador vai na casa dela para
resolver os problemas dela com o animal, o que não é verdade.
O treinador vai lá, ensina o cão, mas se o dono não
estiver participando, o aprendizado só vai funcionar com o treinador.
Tem pessoas que dizem "ai, o meu cachorro", só pra ter
assunto com os amigos, mas na verdade o cachorro é do empregado,
porque é o empregado que alimenta, que leva para passear. O animal
cria um amor incondicional por quem lhe dá carinho, por aquilo
que ele vivencia. Ele vai ser grato aquela pessoa que cuida dele. Qualquer
que seja o animal, é preciso que o dono procure tempo para estar
com ele.
Cães
Maravilhosos
Rua Manoel Velasco, 90 (estacionamento do COBASI)
Tel.: (11) 3641-8478
www.caesmaravilhosos.com.br
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