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Roberto
Tripoli: o vereador defensor dos bichos explica a polmica lei do RG animal
Poucos
so os vereadores que legislam em nome dos animais e do meio ambiente.
Um deles certamente Roberto Tripoli, do PSDB (SP). H algumas semanas,
um projeto de lei
de sua autoria vem agitando o meio animal, ao qual pertencem algumas
de suas paixes: duas ovelhas, um cavalo, carpas e cinco ces, Bronze
(boxer), Maicon (labrador), Nina, Pepita e Nike (SRD). Com conhecimento
de causa conferido por 25 anos de militncia a favor do meio ambiente
e 13 como representante do movimento ecolgico, Roberto Tripoli fala com
exclusividade FOCINHOS sobre leis anti raas, discute seu projeto e
comenta aspectos sugeridos por nossos consultores.
POR ADRIANA
MORI
FOCINHOS:
Qual a motivao de seu projeto de lei? Quais situaes fizeram com que
o projeto fosse elaborado?
ROBERTO TRIPOLI: H 13 anos fui eleito representante do movimento
e desde ento tenho procurado ouvir os anseios desse movimento, como vereador.
Minhas leis relativas a animais vieram das entidades. Esta ltima reflete
uma tendncia mundial: a de educar os proprietrios dos ces e gatos para
reduzir o prprio abandono, os maus tratos, as superpopulaes e at o
sacrifcio. Antes, j tinha feito a lei da castrao. Normalmente os anseios
do movimento so transformados em lei por minha assessoria e eu sou apenas
o condutor do processo dentro do legislativo municipal e, depois, luto
ao lado dos protetores para cumprir as leis aprovadas. Agora, estamos
mais uma vez aguardando a sano do projeto pela prefeita Marta Suplicy
para depois lutar por seu cumprimento.
F: O vereador
se valeu de que instrumentos ou veculos para decidir que esse projeto
de lei o que h de mais importante para o bem estar animal, no atual
momento?
RT: importante realar que precisamos educar os proprietrios
dos animais para reduzir os casos de maus tratos de qualquer natureza.
Veterinrios, protetores de animais, ONGs, advogados ligados ao movimento,
todos ajudaram a dar a forma final ao projeto. Isso aconteceu na administrao
anterior (do ento prefeito Celso Pitta) e, com a nova administrao municipal,
o secretrio da Sade, Eduardo Jorge, tambm se aproximou do movimento
e se mostrou interessado em ver aprovado o projeto 116/2000 o mais breve
possvel. Nesse momento, o secretrio tambm colocou tcnicos do CCZ para
discutirem o projeto com minha assessoria. Foram feitas novas modificaes.
Perdemos coisas, ganhamos outras. O texto final pode no ser o ideal ainda,
mas o melhor que conseguimos.
F: Que
tipo de pessoa a lei pretende combater e quais as situaes e casos que
a lei pretende prevenir?
RT: A lei pretende combater quem no tem responsabilidade no trato
com seus animais, em todos os sentidos, e pretende prevenir inmeros casos.
Vou citar alguns pontos principais. A obrigatoriedade de registro dos
animais vai permitir, pela primeira vez na histria de So Paulo, a elaborao
de estatsticas exatas sobre o nmero de ces e gatos da cidade. Com estes
nmeros, as entidades e o poder pblico podero realizar programas de
controle de natalidade mais eficazes, implementar programas de vacinao
contra raiva, leichimaniose e leptospirose mais eficientes, por exemplo.
Outra coisa muito importante: quando sancionada pela prefeita, a nova
lei ser o primeiro instrumento legal do pas a tipificar maus tratos.
A lei federal de crimes ambientais inovou ao considerar crime a prtica
de maus tratos contra qualquer animal. Mas o decreto regulamentador no
listou o que exatamente pode ser considerado mau trato, causando inclusive
polmicas jurdicas enormes. Nossa lei listou os maus tratos e ainda deixou
abertura para que os agentes-vistores julguem outras prticas como maus
tratos, mediante laudo. Um grande avano em termos de proteo e bem-estar
animal. Cito ainda a liberao da entrada dos ces-guias de cegos em qualquer
estabelecimento ou meio de transporte. Tambm impusemos regras rgidas
para a conteno, na parte frontal das residncias, de animais potencialmente
agressivos, visando reduzir o grave problema de agresses contra carteiros,
funcionrios de empresas fornecedoras de energia eltrica e gua etc.
Vale lembrar tambm que, com a plaqueta, todo animal que se perder de
seu dono ter mais chance de ser devolvido.
F: Como
poder ser tirado o documento provisrio para animais em trnsito? E se
o animal est em trnsito, ou seja, na cidade apenas de passagem, qual
o sentido dessa obrigao?
RT: Regras do cumprimento da lei so estabelecidas pelo Executivo,
a quem cabe obviamente cumprir uma lei feita pelo Legislativo. O sentido
do documento tem um forte cunho de sade pblica, pois animais vindos
de outros locais podem trazer zoonoses para c. Alm do mais, se ficasse
essa lacuna na lei, muita gente que no quisesse registrar seu bicho poderia
ficar alegando que no mora aqui.
F: E como
ser o registro dos animais - o animal estar presente no ato do registro?
Quem supervisionar esses trabalhos? Quanto custar ou ser gratuito?
RT: O animal tem que estar presente, sim. Quanto a preos e demais
regras, isso cabe ao Poder Executivo estabelecer. A superviso ser do
Centro de Controle de Zoonoses.
F: Quando
for encontrado um co conduzido por uma criana que teoricamente no teria
fora suficiente para controlar os movimentos do animal, qual ser a ao?
Confiscar o animal? Levar a criana e o animal para o CCZ? Levar ambos
para casa? E se o animal for adestrado? Se o adestramento foi bem feito,
no necessrio ter fora para controlar o co.
RT: Novamente, as regras para o cumprimento da lei devem ser estabelecidas
no decreto regulamentador, pelo Executivo. Alis, foram tcnicos do CCZ
que sugeriram a incluso dessa expresso no projeto; eles alegam receber
muitas denncias de agresses de animais que fogem do condutor, pois este
no teve foras para segur-lo. Olha, no fundo, no fundo, eu acho mesmo
que o grande efeito dessa lei vai ser a conscientizao das pessoas sobre
esse tipo de problemas e todos os outros que j citamos. Quem exerce a
propriedade responsvel nunca deixa uma criana conduzir um animal de
grande porte sozinha. Mesmo adestrado, um co pode surpreender, sobretudo
se estiver com uma criana.
F: Esse
tipo de surpresa no justificaria um artigo anti-raas no projeto de lei?
RT: Acho que no, tanto que meu projeto no probe qualquer raa de
co ou gato. Sou contra esse tipo de proibio. Qualquer co ou gato pode
ferir um ser humano, sobretudo se ele for maltratado, viver em condies
inadequadas, for mal adestrado, no contar com ateno e carinho. Obviamente,
uma mordida de um poodle causa bem menos estragos do que a mordida de
um rotweiller, de um pit bull ou de um fila brasileiro. claro que algumas
raas devem merecer cuidados especiais, como adestramento, mas no devemos
proibir nenhuma delas.
F: Por
que propor uma multa pelo no recolhimento das fezes, se j existe uma
lei que diz isso, mas pouca gente conhece e quase ningum respeita?
RT: Mas necessrio. Enquanto as pessoas no se civilizarem continuar
sendo necessrio. Voc no imagina o drama enfrentado principalmente pelos
cegos que acabam pisando em montes de excrementos ou sujando suas bengalas
nos dejetos de ces. E um deficiente visual usa bengala dobrvel para
reduzir o tamanho do equipamento ao entrar, por exemplo, num nibus. Ao
dobrar a bengala acaba sujando toda a mo, a roupa, a bolsa. Voc imagina
o constrangimento, a vergonha?
F: No
artigo 14, proibida a criao, o alojamento e a manuteno de mais de
10 (dez) ces ou gatos, no total, com idade superior a 90 (noventa) dias,
nas residncias particulares. Como ficam os voluntrios da defesa animal,
que recolhem animais abandonados nas ruas? Caso a casa seja grande e o
proprietrio tenha condies de manter a todos adequadamente, qual o problema
visto pelo senhor nesse ponto?
RT: Este limite j existe, estabelecido na lei 10.309, de 1987. Portanto,
qualquer pessoa que tenha mais de 10 ces e gatos em casa j est em situao
contrria lei. Em nosso projeto est previsto um perodo de regularizao
para quem tem mais do que 10 animais, num limite de 15. A maior parte
dos pases do mundo controla de alguma forma a populao de domsticos,
seja impondo limites (normalmente trs ou cinco no mximo), seja impondo
altas taxas para o registro de cada animal, o que por si s ajuda a controlar
o nmero de animais em cada residncia. Mas vejam bem, quando a cidade
chegar a uma situao ideal, de controle populacional, depois de muita
campanha de castrao e de programas continuados de educao, no teremos
mais tanto excedente. E nesse momento, os protetores tambm no precisaro
recolher tanto bicho. A lei somente um item de um grupo enorme de aes
que precisam ser implantadas com urgncia em So Paulo, uma das maiores
cidades do mundo, mas cujas administraes municipais vm tratando, h
anos, os animais como produtos descartveis da sociedade de consumo. Administraes
que olham o animal somente como potencial transmissor de zoonoses e, portanto,
passvel de extermnio - prtica que nunca conseguiu reduzir as populaes
de ces e gatos e, ainda, provocou o caos que se percebe hoje, com centenas
de milhares deles vagando abandonados. Uma situao inadmissvel do ponto
de vista tico e da sade, pois alm de chocar os seres humanos que possuem
princpios de humanidade, animais sem vacina, doentes, feridos so potenciais
transmissores de zoonoses, podem provocar acidentes de trnsito e at
atacar pessoas.
F: O adestramento
em locais pblicos uma tendncia mundial que auxilia na socializao
e na recuperao de ces-problemas, desde que feito por especialistas
competentes. Se o adestrador for filiado a algum kennel clube, isso no
seria suficiente para permitir que essas atividades continuem de forma
adequada? Qual o motivo desse artigo ter sido includo? Foram consultados
especialistas da rea de comportamento animal e adestramento para isso
(j que se trata de um assunto tcnico)?
RT: Os tcnicos do Centro de Controle de Zoonoses trouxeram o problema
tona, dando conta das inmeras denncias que chegam ao rgo, a respeito
de animais de grande porte sendo adestrados, sem controle, em praas e
parques, tornando-se ameaas potenciais para crianas, sobretudo. E estes
tcnicos solicitaram a incluso, no texto do projeto, de um mecanismo
que impedisse o adestramento desenfreado que vem ocorrendo em locais pblicos.
Alis, conforme minha assessoria levantou, hoje em dia existe uma falta
generalizada de regras na questo do adestramento e ao lado de adestradores
super capacitados existem outras pessoas que nada entendem e que se dizem
adestradores. Talvez a prpria categoria deva estabelecer novas regras,
tornar a prtica uma profisso, enfim... Ns e o movimento de proteo
animal estamos abertos a novas discusses, sempre. De mais a mais, mesmo
sem esta lei, qualquer pessoa pode ser impedida, pela Prefeitura, de exercer
suas atividades particulares em um local de uso pblico. Isso j existe,
no inventamos a roda.
F: H
planos de reforma e reestrutura do CCZ? A descrio da lei, onde diz que
"lugares imprprios ou que lhes impeam movimentao e/ou descanso, ou
ainda onde fiquem privados de ar ou luz solar, bem como alimentao adequada
e gua, assim como deixar de ministrar-lhes assistncia veterinria por
profissional habilitado, quando necessrio" parece ter sido espelhado
no CCZ. Qual ser a iniciativa a respeito do CCZ para o cumprimento da
lei?
RT: Quem pode responder a respeito de reformas no CCZ o senhor Eduardo
Jorge, secretrio da Sade, pasta qual est afeto o CCZ. Posso dizer
que remodelar totalmente o CCZ e descentraliz-lo, criando pelo menos
mais quatro unidades imediatamente, uma antiga reivindicao do movimento
de proteo animal do qual eu participo. Em mais de uma oportunidade,
o secretrio Eduardo Jorge j afirmou para o movimento que vai reformar
o CCZ, que vai descentraliz-lo, que vai realizar campanhas de castrao
em massa, que vai educar a populao para a propriedade responsvel...
Espero, sinceramente, que esta administrao cumpra essas promessas e
realmente modifique totalmente a forma de olhar para as questes relativas
aos animais na cidade - todos os animais, sejam eles domsticos, domesticados,
silvestres, nativos ou exticos.
F: Quais
sero os critrios utilizados para encaminhar um co para a eutansia?
Se cada pessoa s puder ter 10 ces no mximo, alguns tero de ser abandonados
e sero encaminhados para a morte, sendo que poderiam ter ficado com seus
antigos donos?
RT: Conforme j disse, o limite de 10 animais existe h 14 anos, mas
quero frisar um ponto: hoje em dia, sabemos da existncia de muitos protetores
de animais, pessoas abnegadas que tantas vezes deixam de comprar coisas
para si mesmas pois alimentam, cuidam, vacinam 20, 40, 60 animais ou mais.
Em todos os bairros da cidade existem casos assim, fruto de todo o descaso
das administraes municipais para com os animais, conforme j citei.
Essa gente, em geral, acaba chegando a uma situao limite, sem ter mais
condies financeiras ou espao para manter tantos bichos. Quase diariamente,
minha assessoria recebe pedidos desesperados de ajuda e um vereador no
tem verba para esse tipo de atendimento individualizado. As entidades
de proteo animal, sobretudo aquelas que possuem abrigos, tambm so
acionadas diariamente por pessoas desesperadas, que imploram para doar
seus 40, 50 animais ou parte deles. Esse tipo de situao precisa acabar.
Como? Nada de matar os animais excedentes e, sim, modificar o cenrio
a mdio e longo prazo da forma que eu j citei: com programas de castrao
em massa, programas permanentes de educao, instituio de lares transitrios
(que abrigam ces e gatos enquanto se busca novos donos para eles). Enfim,
os olhos do poder pblico e de toda a sociedade precisam estar voltados
para os animais, nossos parceiros de jornada na Terra. Nunca preconizamos
a morte de animais e sempre lutamos, todos ns do movimento de proteo
animal, pelo fim da morte no CCZ - recentemente conseguimos desativar
a famigerada cmara de descompresso de ar. Quando um animal tem que ser
sacrificado, que seja atravs da eutansia (por injeo letal, sem sofrimento).
Confira
como foi o fórum de discussão sobre esse assunto.
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