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 entrevista
Castrao, uma questo de respeito
Marco Ciampi, presidente da ONG Arca Brasil, defende a castrao para o melhor convvio entre o homem e o animal

POR EDILSON SAASHIMA
FOTOS MARTIN GURFEIN

Antes prevenir do que remediar. O provrbio pode soar lugar-comum, mas, quando o assunto proteo animal, poucos pessoas parecem conhecer esse pensamento. At pouco tempo, as ONGs (organizaes no-governamentais) voltadas para a proteo animal no Brasil atacavam a conseqncia do problema do animal abandonado, ou seja, se preocupavam em recolher os bichos e esperar que alguma alma caridosa os adotasse. Marco Ciampi, presidente da Arca Brasil, pensa diferente: para ele, a soluo investir na preveno, ou seja, em campanhas que ajudem a evitar crias indesejadas.

Com uma equipe fixa de cinco pessoas, a Arca Brasil oferece consultoria de controle e bem-estar animal e desenvolve projetos para municpios. Em Taboo da Serra (Grande so Paulo), por exemplo, a parceria da Arca com a prefeitura resultou na castrao de cerca de 8% dos ces e gatos.

H menos de uma dcada, Ciampi no imaginava que estaria nessa posio. Formado em Comrcio exterior e com carreira feita em publicidade, ele enviou um currculo para uma entidade inglesa de proteo animal que pretendia abrir um escritrio no Brasil. Foi aprovado. "Estava buscando um caminho na minha vida", conta. Hoje, aos 46 anos, uma das raras pessoas que sobrevivem apenas com o trabalho nessa rea.

FOCINHOS - Em quais pontos a Arca Brasil se diferencia das demais entidades de proteo animal?
MARCO CIAMPI - Primeiro, ela encarou o problema pela preveno, tirando qualquer dvida sobre a importncia da castrao. Por exemplo, existiam alguns mitos de que a castrao era uma mutilao. Talvez at hoje algumas pessoas pensem isso. Outras acreditavam que o animal ficaria invlido, deixaria de proteger a casa ou que a castrao era uma judiao. Todos esses mitos foram tratados por ns de forma tcnica. O co no vai deixar de proteger o territrio, s vai deixar de disputar a fmea. A castrao no um mau-trato: ela feita com anestesia geral e por um profissional. O bicho no vai sentir nada... O segundo ponto trabalhar junto com a sade pblica. Havia a mentalidade de que eles eram os nossos inimigos. No verdade. Eles estavam recolhendo um problema criado pelo dono do animal. Por isso, o pessoal das entidades de proteo animal tem que trabalhar na conscientizao do proprietrio do animal e, assim, tentar contribuir para o servio de sade pblica.

F - E como as entidades protetoras de animais tradicionais tratavam a questo?
MC - A Uipa (Unio Internacional Protetora dos Animais), que a primeira entidade protetora do pas, criada h mais de 100 anos, foi a traduo da proteo animal, aquela que resolve a questo recolhendo o bicho abandonado. Isso era possvel numa cidade do incio do sculo, que contava com populao de 100 mil, 200 mil habitantes. Mas numa cidade como so Paulo, com mais de 11 milhes de habitantes, praticamente impossvel dar conta desse problema com a poltica de dar "abrigo aos animais".

F - A principal preocupao da Arca Brasil o controle do crescimento dam populao de ces e gatos?
MC - O problema o excedente populacional. Esses animais que esto sendo gerados, colocados no mundo, sem planejamento ou um desejo do dono. Ns no temos nada contra a procriao tica, quando j se tem um destino traado para aquele animal. Somos contra aqueles casos em que a fmea, no primeiro descuido nosso, aparece grvida e, de repente, so mais seis bocas a serem alimentadas. O gato pior. Ele pode dar crias trs a quatro vezes por ano.

F - E essa situao pode levar marginalizao do animal?
MC - Exatamente. a marginalizao, a depreciao do vnculo homem/animal. isso que faz a gente ter que aceitar a viso de um animal na estrada ou na frente de uma padaria, com sarna, magro, esperando a sobra. Ou seja, um marginal, um indigente, que est entregue ao seu prprio destino... O homem escolheu conviver com os animais nos centros urbanos, portanto, responsvel por eles. Se o bicho s conta com seu instinto, ele vai reproduzir incontrolavelmente. Cabe ao homem zelar por esse importante aspecto que a procriao indesejada. Esse um dos aspectos da questo. Alm disso, quando voc acolher um animal na sua famlia, obrigado a dar abrigo, alimento, cuidados veterinrios, carinho. Tudo isso faz parte daquilo que chamamos de posse responsvel. Quando isso no ocorre, o pacto do homem com o animal quebrado.

F - Em quais cidades do mundo esse problema mais comum?
MC - Qualquer cidade do mundo vive esse problema. Todo lugar tem que prever o equilbrio da populao animal. No Estado da Califrnia (EUA), por exemplo, preciso tirar uma licena para que o animal procrie. Ali, o poder pblico entende que voc est colocando mais animais no mundo, o que pode causar impacto no meio ambiente. A lgica a seguinte: se o bicho no recebe ateno, cuidados, vai para as ruas e pode rasgar o lixo, atacar pessoas, fazer suas necessidades na calada. Tudo isso implica em gastos. esse tipo de controle, esse exerccio de cidadania, que esperamos viver um dia no Brasil.

F - O controle no fere os direitos do animal? Qual seria o limite entre o direito do homem e o direito do animal?
MC - Se voc trouxe o animal para a cidade, ele tem que estar de acordo com algumas regras de convvio. Ele pode ter caractersticas prprias que no sejam adequadas para o convvio na sociedade. Quando ele pula num varal, ele pode estar seguindo seu instinto, mas a dona do varal pode no gostar... Se ele continuar com essa atitude, corre o srio risco de ser mais um animal abandonado nas ruas. Portanto, a educao do animal uma das regras. como educar uma criana. Isso no quer dizer que, com a educao, eu v impor uma caracterstica de nvel comportamental que possa causar trauma no animal.

F - E o que voc considera um convvio ideal entre homem e animal?
MC - Convvio ideal quando voc assume essas responsabilidades e as executa. Se voc d abrigo, ateno, alimentao, cuidados veterinrios, educao, vacinao, identificao, voc est integrando o animal a sua vida e sociedade. prximo ao conceito de famlia, da qual ele ser mais um membro. Ns temos que estar cientes de que o animal vai viver 12, 15 anos. Nesse perodo, o bicho ter pessoas ao seu redor que o desejem? Nas frias, vai ter algum que possa cuidar dele caso o dono viaje? Esse o plano ideal da questo. Na verdade, o plano ideal quando voc tem uma relao de prazer e desfruta o que o co e o gato representam, ou seja, so animais de companhia.

F - Como voc iniciaram o trabalho junto Prefeitura de Taboo da Serra?
MC - A Arca Brasil, no intuito de trabalhar na preveno do problema de superpopulao animal, decidiu dar subsdios e assessoria para algum municpio na questo de controle populacional. A cidade de Taboo da Serra surgiu por meio da tcnica do Controle de Zoonoses da cidade, a veterinria Rita Garcia. Ela compreendeu que era necessrio trabalhar essa questo e nos ajudou a vender a idia ao secretrio da sade, que aceitou a proposta.

F - E no que consiste esse projeto?
MC - O nome do projeto "Programa de Controle das Populaes de Ces e Gatos", que funciona da seguinte maneira: a prefeitura, por intermdio do Centro de Controle de Zoonoses, doa medicamentos para as clnicas veterinrias da cidade. Assim, elas podero oferecer castraes a preos mais acessveis. Alm disso, uma vez por semana, multires de mdicos veterinrios oferecem cirurgias de castrao gratuitas para a populao carente.

F - E qual o retorno?
MC - O programa teve incio em 1996 e, nesses quase seis anos, j foram cadastrados mais de 4.000 ces e gatos, ou 12% da populao animal do municpio. Alm disso, esse projeto despertou o interesse de outras cidades, entre elas grandes centros, como Jundia, Osasco, Carapicuba, Sorocaba, Rio de Janeiro, Terespolis, Porto Alegre e Teresina. No total, so 20 cidades brasileiras que vo implementar ou estudam a possibilidade de tocar o mesmo projeto.

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