"Sou
contra os homens, no os ces"
Depois de lutar pelo pit bull e pela lei de posse responsvel, a presidente
do Kennel Clube Paulista investe contra o projeto de lei que prev a proibio
do pit bull, rottweiler e mastim napolitano no Estado de So Paulo
POR ADRIANA
MORI
Agnes
Buchwald est se especializando no que ela prpria chama de "causas perdidas".
Presidente do Kennel Clube Paulista, foi em sua administrao que o pit
bull, pela primeira vez, foi reconhecido como raa. Foi uma das articuladoras
junto ao deputado federal Cunha Bueno (PPS-SP) para o projeto de lei da
posse responsvel e atualmente est engajada no esclarecimento contra
a proposta de lei do deputado estadual Alberto Calvo (PSB-SP), que visa
a proibio da criao e comercializao das raas pit bull, rottweiler
e mastim napolitano no estado de So Paulo. "Precisamos parar de falar
de ces e nos direcionar s pessoas. Por que falamos de ces num pas
onde uma pessoa corta a cabea da outra e joga futebol com a cabea dele?
Onde se encontra criana em saco de lixo? Amo ces e no quero ningum
mordido, temos de corrigir as pessoas, os ces no tem o que corrigir,
mas estudar, compreender e proteger de ns", desabafa.
FOCINHOS:
A proposta da lei condiz com a realidade?
Agnes Buchwald: De jeito nenhum. So Paulo muito grande, vai
ser impossvel fiscalizar cada canto do Estado onde pode haver um criador
de pit bull. Na verdade, o grande problema dessa lei no o fazer cumprir,
quem ela atinge. O prejudicado no ser o rinheiro, pois a rinha clandestina.
Quem vai levar a pior nessa so os criadores responsveis, que mostram
a cara, que do nome, endereo e telefone. Esse deputado est legislando
contra os inocentes. Na Inglaterra, onde a fiscalizao muito mais efetiva,
quando proibiram o pit bull, sabe o que aconteceu? Um co que custava
200 libras passou a custar 1000 libras e com isso, as rinhas ficaram mais
ricas e rentveis. Lei que probe incentiva o crime.
F: Em
sua opinio, quais sero os eventuais efeitos da lei em So Paulo caso
seja aprovada?
AB: As pessoas continuaro criando escondido. Por ser proibido,
o co custar mais caro e as rinhas sero valorizadas. Parece que este
deputado no conhece muito bem o assunto sobre o qual est legislando,
os efeitos dessa lei so muito piores do que se ele debatesse com outros
setores e percebesse que a forma de combate s mordidas que ele prega
no a melhor.
F: Qual
o significado da aprovao de uma lei como essa?
AB: Para o criador que faz as coisas na surdina, nenhuma. Se ele
no continuar clandestinamente a criar o pit bull, ele pode optar por
outra raa, como o "fox terrier plo duro de briga". muito injusto,
pois vrias pessoas apenas lembram que as alguns foram mordidos e acusam
as raas sem perceber que quem est por trs de tudo isso o homem. S
que como no conhecem e nem tm nada a ver com as raas, apoiam esse tipo
de lei. um mau sinal que tenha sido aprovada em tantas instncias.
F: Essa
idia no a mesma que o deputado Cunha Bueno tinha antes de mudar seu
projeto de lei?
AB: Sim, e eles no esto errados em querer defender o ser humano.
O discurso do deputado Cunha Bueno era o mesmo que o do Calvo: exterminar,
castrar, proibir, at que tivemos a chance de conversar e esse homem,
na maior humildade, admitiu o seu erro. Disse que as mordidas tm de acabar,
mas por outro meio.
F: Existe
alguma alternativa que faa desse projeto algo vivel?
AB: Acho extremamente importante a preocupao de inibir ataques
de ces, mas a forma como est sendo conduzida que no est certa. Para
essa lei, assim como para a lei do deputado Cunha Bueno, a sada mais
lgica a posse
responsvel. Ao elaborar seu projeto de lei, o deputado
debateu por dias conosco, para definir como seria e uma coisa que foi
dita quanto posse responsvel foi que os ces deveriam ser chipados.
As casas onde h ces de guarda e de grande porte devem ter avisos na
porta e fazer o possvel para que esses ces no tenham acesso fcil s
pessoas.
F:
Pela constituio, o animal um bem que pode ser comprado, vendido, negociado,
pode ser trocado por dinheiro. Algum pode legislar em cima de algo que
uma pessoa comprou?
AB: Pode.
F: Ento
voc no tem direito sobre o que compra?
AB: Tem, mas pode ser questionado. A partir do momento que o poder
pblico recebe uma denncia de que algum tem um animal constantemente
maltratado, se eles forem para sua casa, voc pode ter pagado o quanto
for pelo animal, no interessa, o animal confiscado.
F: Uma
lei como a do deputado Alberto Calvo no anticonstitucional?
AB: Claro que ! Quem tiraria um co de mim se eu o trato bem e
tomo todas as minhas precaues?
F: Mas
isso no contrrio ao que determina o projeto de lei?
AB: Justamente! E por isso que absurdo. Gostaria de ver como
ele controlaria isso. Se ele me permitisse, eu queria acompanh-lo em
cada casa que ele fosse para ouvir ele dizer "olha, esse pit bull, deve
ser castrado, vim aqui como deputado, com o poder que a lei me confere,
quero esse co castrado". O dono permite e a, ele vai fazer o qu? Vai
pegar meu co, levar no veterinrio, vai fazer uma castrao e vai pagar
por isso? Mas e se durante a operao o co morre? A chance pequena,
mas existe, afinal, trata-se de uma interveno cirrgica invasiva. E
a, quem vai pagar por essa perda sentimental? J que para gastar dinheiro,
muito melhor instituir uma lei que obrigue o pessoal a microchipar seus
ces. muito mais fcil, moderno e indolor, e mesmo assim aplicvel em
termos. Nosso pas muito grande, tem recnditos, lugares afastados,
isso vai levar muito tempo. Nosso pas continental, onde a lei vai valer?
So Paulo, capital?
F: Segundo
o deputado, no Estado todo.
AB: Quero ver. Em nosso Estado h regies que eu tenho certeza
de que o senhor deputado nunca viu, onde pode haver enormes criadouros
de pit bulls, cobras, piranhas etc. Primeiro, ele no vai saber o que
um pit, pois tem o american pit bull terrier, o american staffordshire
terrier e o american bull terrier. Entre os trs, quem vai dizer para
ele qual pit? Ou quem vai dizer para um leigo como um mastim napolitano?
Para ns fcil, mas o leigo vai ver o co enorme, preto, enrugado e
vai achar que um mastim napolitano. Existem raas como o terrier brasileiro,
o pastor australiano, o border collie, que se voc no conhece, acha que
um vira-lata. Ele est falando sobre coisas que no entende, vai baixar
uma lei, gastar papel e tinta para aparecer, mas no vai conseguir fazer
funcionar. Para isso acontecer, tem de haver um cataclisma como a vaca
louca, que provocou o extermnio da raa antes que acontecesse algo pior,
mas se no for isso...
F: Onde
est o ponto falho da lei?
AB: A espcie co no tem como botar a boca do mundo, no tem como
se defender. O que o deputado est fazendo um crime, a legislao tem
de ser em cima do proprietrio. Ser que ele tem condies de manter um
co? Tem gente que no tem o que comer em casa, mas mesmo assim tem um
co no fundo do quintal, amarrado na corrente, passando fome e sede. Quem
no tem condio de ter um co no tenha. Ningum obrigado a ter, mas
se tem, um compromisso, voc tem de se dedicar para criar um ser do
qual se orgulhe, que seja digno, que seja um elo em uma sociedade onde
ele conviva pacificamente.
F: Mas
e se o co ataca?
AB: Eu fao um grande esforo para que meu co seja criado, educado,
treinado, tratado, manipulado e mantido adequadamente. Mas se ele escapar
e matar, por favor, venha aqui com a polcia e me levem presa, pois eu
no soube educar. Tenho um instrumento que pode ser mortal e eu no soube
usar. No existe porte de arma? Pois bem, acho que deveria ter porte de
co, com uma srie de restries.
F: Mas
nem todo co pode se orgulhar do dono que tem.
AB: Com certeza. Imagine aquele pit bull que passou dias em um
poro escuro sem comida sem nada que quando sai para a luz est mordendo
a prpria sombra? Mas por outro lado, h ces com donos excelentes. No
podemos cair na generalizao. Por exemplo, peguemos o manaco do parque.
Ento, s porque o cara pardo, de estatura mdia, olhos castanhos, ele
um serial killer? S por que um cara matou um monte de mulheres, todos
os que se encaixam nessa mesma descrio so assassinos e vo sair matando
por a? Se meu filho fosse mordido por um pit bull, eu desejaria que aquele
indivduo fosse sacrificado, pois portador de desvio de comportamento.
F: Morder
faz parte da natureza do co?
AB: Meus filhos foram, a vida inteira, criados com boxers e nunca
houve nenhum acidente, mas tambm eu nunca os deixei sozinhos com os ces.
Acidentes sempre podem acontecer e nunca se sabe como o co reagir a
imprevistos. A reao do co morder, pois assim que ele se defende.
S que a mordida de um co de colo causa menos estragos que a de um animal
de porte grande. No tiro a razo de quem diz que as mordidas caninas,
independente da raa que for, devem ser evitadas. Mas de que forma? Controlando
os seres humanos, pois os cachorros no possvel. Enquanto no tivermos
resolvido o problema da fome, educao, cultura e corrupo, no cachorro
que o problema, o problema o ser humano, e isso grave.
F: Se
proibir essas trs raas, no podem surgir sucessores?
AB: No s pode como vai. Eu, pessoalmente, ainda no entendi o
porqu do mastim napolitano. O pit
bull j o inimigo nmero 1, o emblema do "vamos tirar
de circulao que tudo vai ficar bem", seguido do rottweiler. Mas o mastim,
de onde ele tirou essa idia? O cane corso muito mais bravo! Acredito
que ele no entenda nada no que diz respeito a ces, mas com dilogo,
ele poderia obter melhores resultados e sucesso do que sair atirando a
esmo e no saber o que est fazendo.
F: Assim,
d para entender a incluso do mastim na lista...
AB: Sim, s que ele no tem a capacidade de entender o que o mastim,
um co de rinha do circo romano. Vamos deixar acabar com um monumento
desses? A gente tem mais que preservar. Ns herdamos essas coisas, no
temos direito de exterminar. Tantas raas e espcies esto sumindo, que,
daqui a um tempo, para ver diferentes raas de ces teremos de ir ao zoolgico.
Na Austrlia, existia um co nativo que, por matar ovelhas, foi exterminado
e agora, por clonagem, tentam recuperar esse tesouro que foi exterminado.
J na Hungria, as raas nativas so intocveis - o komondor um co bravssimo
- mas isso ningum tenta mudar, pois se voc conhecer a raa que pretende
criar ou comprar, voc saber com o que est lidando, pois por mais adaptados
que estejam em um ambiente diverso, os ces foram, por sculos, selecionados
para um tipo de trabalho e querer mudar essa natureza de repente muito
complicado.
F: A senhora
diz que defensora de causas perdidas. O pit bull uma delas?
AB: No. Se achasse, no estaria lutando at hoje. Com todos que
consegui conversar pessoalmente, consegui dissuadir. Quando conseguimos
falar e a pessoa tem um pingo de juzo, conseguamos convencer a compartilhar
de outro ponto de vista. No tenho frescura, vou onde for preciso, falo,
defendo, explico, temos pit bulls fazendo terapia em asilos, temos rottweilers
fazendo busca e salvamento e atuando como guia de cego. Por que no se
fala das coisas maravilhosas que os ces fazem ajudando o ser humano?
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