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 entrevista
Uma viagem ao inferno
Veterinário e protetor animal, Werner Jonh Payne passou 40 dias trabalhando voluntariamente no módulo de eutanásia do CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de São Paulo. O que acontece lá dentro, ele garante: "Não desejo para nenhum ser vivo"

POR ADRIANA MORI

Trezentos animais, em sua maioria cães, são mortos por dia no CCZ de São Paulo. A forma de execução é terrível: a câmara de descompressão, onde os animais são colocados e o ar retirado. São 20 minutos de sofrimento que nem sempre dá certo, pois o método é arcaico e a máquina tem vias de entrada de ar.

No final de 2000, a câmara apresentou problemas. Foi assim que, durante 40 dias, Werner Jonh Payne, veterinário em Itapecerica da Serra (SP) e voluntário da APAIS (Associação de Proteção aos Animais - www.apais.org) conheceu o inferno, na forma de crueldade, indiferença e injustiça humanas, em uma equação onde quem sai perdendo são os animais. Ele se ofereceu para trabalhar no CCZ, a fim de oferecer uma morte humanitária e menos sofrida para animais que poderiam ter um fim diferente. Também viu idéias que poderiam melhorar a vida dos animais serem abortadas antes de serem postas em prática, viu animais em condições desumanas, viu o cão que queria adotar ser morto em seu último dia de trabalho no CCZ.

FOCINHOS: Como surgiu a oportunidade de fazer esse trabalho no CCZ?
Werner Jonh Payne: As entidades protetoras de animais haviam elaborado um Projeto de Reestruturação do CCZ, do qual faz parte o módulo eutanásia. No entanto, só pudemos implantar o módulo eutanásia, isso porque a câmara de descompressão estava quebrada e havia uma superpopulação de animais que deveria ser sacrificada.

F: Para um protetor, como é fazer uma eutanásia?
WP: Por incrível que pareça, eu estava em paz comigo. Fiz o máximo que pude para o cão não sofrer. Se não tivesse sido assim, o cão iria para a câmara de gás, ou seria eletrocutado ou morreria de outra forma, muito mais sofrida e dolorosa.

F: Como é o tratamento dado aos animais no CCZ?
WP: Eles, como centro de controle de zoonoses, teriam de proporcionar bem estar ao animal do qual eles têm a guarda, mas o que acontece é o oposto. Só uma vez por dia, limpam o canil e colocam água limpa e ração. São os dez minutos em que o cão fica em lugar limpo, nas demais 23 horas e 50 minutos, eles vivem dentro das próprias fezes. No canil, presenciei também cães passarem os dez dias anteriores ao sacrifício com a mesma guia e corrente com a qual foram capturados, animais de grande porte como um dogue alemão de 90 quilos deitado em cima de um estrado sujo de fezes, onde cabe apenas a metade do corpo, passando por tudo aquilo porque ele tinha ficadovelho e o dono não o quis mais. Um caso pior que o outro, que piorava quando via um tratador tirando o cachorro do canil à força, enforcado com o cambão. A reação natural é que o cachorro tente se livrar do incômodo mordendo a ponta do cambão que é de ferro. Eu ouvia os dentes deles quebrando, via suas bocas sangrando. E do outro lado, os tratadores comemorando com palavras como "morde, trouxa, fica banguela mesmo".

F: Argumentar era impossível?
WP: Tentávamos, mas era inútil. Todos os dias tinha discussão, mas se nós reclamássemos ou fizéssemos sugestões para melhorar as condições de vida para os cães, éramos recebidos com "não dá, não pode ser feito, precisa de aprovação do engenheiro responsável, já tem quem faça, vocês chegaram agora e não sabem de nada". Eles, como CCZ, têm de proporcionar bem estar ao animal que tem guarda durante 10 dias, mas são coniventes com o sofrimento proporcionado ao animal.

F: Existe algum critério na captura e sacrifício de cães?
WP: Nenhuma. Vemos cachorros capturados com roupinha, com coleira, bem cuidados. Muitos deles com certeza saíram de casa para um passeio e foram capturados pela carrocinha. Só que lá no CCZ não estão apenas os cachorros apreendidos na Zona Norte. Tem cães apreendidos em Itaquera, em Parelheiros, nos bairros mais distantes. Como o morador vai até lá buscar seu cão? Outra coisa muito errada está na hora de selecionar os cães para sacrifício. Eles não poupam os cães mais bonitinhos, mais bem tratados, que teriam maior chance de serem adotados. Em vez de sacrificar, poderiam muito bem oferecer esses cães para adoção. Uma prova da irracionalidade do CCZ para esse tipo de situação é o caso de um pastor alemão que eu tentei adotar mas eles não permitiram. Na minha cara, o cão foi sacrificado e eu não pude fazer nada. Ele poderia estar comigo agora, e isso me revolta profundamente.

F: Os cães agressores são realmente violentos?
WP: A maioria não. São animais que morderam porque alguém pisou em seu rabo e passaram a ser carimbados de agressores. Só que dez dias vivendo no lixo, ele vai se tornar uma fera, a cada dia é retirado do canil à força, puxado e enforcado com o cambão. O cão fica sem ar e tenta se defender mordendo a ponta do cambão.

F: Como é a postura do CCZ diante das pessoas que levam seus cães lá para serem sacrificados?
WP: Eles recebem os animais sem ao menos convencer o dono. Apenas dizem para ele assinar que o CCZ faz o serviço. Nos poucos casos que conseguimos flagrar alguém deixando o cão, todos retornaram para casa, fosse em busca de tratamento que não sabiam da existência, fosse pelo simples fato de um esclarecimento. Coisas simples que, se feitas, poderiam evitar o sacrifício de muitos animais, que para alguns funcionários do CCZ deveria acontecer, pois quanto mais cães mortos menor o risco de raiva.

F: Essa preocupação com a raiva é real?
WP: Claro que não. Só podemos controlar a raiva reduzindo o número de cães de tal forma que permita o seu total controle e isto somente seria possível mediante o controle populacional. Não adianta matar, exterminar. Durante 30 anos isso vem sendo feito e o resultado está aí, o problema não foi solucionado. Eles são considerados centro de referência panamericana para controle de raiva, mas a realidade é bem outra. Quem descobriu os casos de raiva em morcego não foi CCZ, foi o setor de silvestres do DEPAVE. O CCZ está alienado, eles não avançaram com tecnologia, o método não é humanitário, eles não admitem mudanças para melhora de condições e ainda têm uma burocracia que emperra tudo.

F: Qual o destino dos cães mortos?
WP: Eram jogados em aterros sanitários, mas um vereador descobriu isso, comprovou e entrou com um processo contra o CCZ por destino inadequado de carcaça. Foi acionado um perito que foi avaliar o CCZ e achou tudo um horror, problemas de esgoto, canis coletivos que não podem ser usados por causa de canos entupidos, contaminação do subsolo. Mas nem assim eles tenta mudar nem melhorar.

Confira como foi o fórum de discussão sobre esse assunto.




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